A Fundação Settaport, por meio da Plataforma MROSC e o financiamento da União Europeia, realizou pesquisa sobre a Lei de Incentivo ao Esporte federal (LIE), o resultado da sistematização está na publicação divulgada pela fundação.
Confira o material CLICANDO AQUI – PARCERIAS E A CRIMINALIZAÇÃO BUROCRÁTICA DAS OSC
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Texto completo (transcrição)
Parcerias e a
Criminalização
Burocrática das OSC
(Organizações da Sociedade Civil):
Análise das proponentes da Lei
de Incentivo ao Esporte (LIE) federal
Este projeto foi realizado pela Fundação Settaport
de Responsabilidade Social e Integração Porto
Cidade, com apoio da EACH-USP, como parte do
Edital 06.2021, da Plataforma MROSC.
A Plataforma por um Novo Marco Regulatório das
Organizações da Sociedade Civil – Plataforma
MROSC – é uma rede de articulação de organizações
sem fins lucrativos e de interesse público, que tem
por objetivo aprimorar o ambiente social e legal de
atuação das organizações.
Autores
Donald Veronico Alves da Silva
Lorena Rizzato Ribeiro
Patricia Maria E. Mendonça
Projeto gráfico
e editoração
Thiago Cerqueira
@vizoodigital
Fotos
https://br.freepik.com/
LISTA DE FIGURAS E GRÁFICOS
Figura 1
Pág24 Gráfico 9
organização já propôs projetos pela LIE?
já apresentada anteriormente
Figura 2
Pág32 Gráfico 10
Pág38
encontrou mais dificuldade na LIE
Oficio solicitando envio de
Gráfico 11
documentos no prazo de 30 dias
Sobre a etapa cadastro e elaboração
Gráfico 1
Pág12
Distribuição regional dos proponentes
do projeto, a organização precisou
Gráfico 12
Pág13
Gráfico 13
esportivas da LIE
Sobre a captação de recursos,
3 Distribuição dos projetos
a organização
incentivados de 2007 a 2020
Gráfico 14
Pág14
Pág19
para enviar o parecer final de alguma de suas
prestações de contas?
Federação a organização atua?
Pág20
Gráfico 16
A administração pública já
7 Há quantos anos a organização é proponente de
apresentou questionamentos
projetos esportivos e/ou para desportivos na LIE?
difíceis de serem respondidos de
8 Quantos projetos a organização
prestações de contas antigas?
já executou pela LIE?
Pág28
Quanto tempo a administração pública já levou
Em qual Estado/Unidade da
Gráfico 7 e 8
Pág27
Sobre a etapa análise orçamentária
Pág15 Gráfico 15
Distribuição regional das OSC
Gráfico 6
Pág26
e execução do projeto, a organização
Distribuição geográfica das OSC
Gráfico 5
Pág25
projeto, a organização
2 Distribuição dos projetos nas manifestações
Gráfico 4
Pág23
Sobre a etapa aprovação do
que acessaram recursos da LIE
Gráfico 2 e 3
Pág22
Qual(is) etapa(s) do projeto a organização
Ofício com exemplo de diligência
Figura 3
Pág21
Em qual(is) manifestação(ões) esportiva(s) a
Parte de ofício solicitando declaração
Pág29
SUMÁRIO
Resumo
1 Introdução
2 Metodologia e Caracterização das bases de Dados
2.1
Base de dados da Secretaria Especial do Esporte, Ministério da Cidadania
2.2
Base de dados do Mapa das OSC do IPEA
2.3
Base de dados da Plataforma da Signatárias MROSC
2.4 Questionário e contatos
3 Resultados da Survey com a OSC
4 Análise das entrevistas
4.1
Situações Organização 1
4.2
Situações Organização 2
4.3
Situações Organização 3
4.4
Situações Organização 4
4.5
Situações Organização 5
5 Relatos do encontro online
5.1
Comentário especialista
5.2
Relato participante 1
5.3
Relato participante 2
5.4 Relato participante 3
6 Considerações finais
7 Referências Bibliográficas
Pág5
Pág6
Pág11
Pág12
Pág14
Pág15
Pág16
Pág18
Pág30
Pág31
pág33
Pág34
Pág35
Pág36
Pág39
Pág40
Pág42
Pág43
Pág44
Pág45
Pág47
RESUMO
No Brasil, o termo genérico utilizado para se referir às
limitações de atuação das OSC tem sido criminalização (sem
que necessariamente ocorra um processo legal). A
criminalização burocrática envolve o crescente grau de
cobranças e exigências que impactam ou inviabilizam os
trabalhos das OSC em suas parcerias com os governos.
O objetivo da pesquisa foi o de identificar casos práticos e
situações concretas de criminalização burocrática sofridas por
organizações esportivas proponentes da Lei de Incentivo ao
Esporte federal (LIE). A criminalização burocrática se
materializa na LIE como um emaranhado burocrático:
situações que independem da vontade do agente público,
tornando o processo lento e oneroso e envolve: amplificação
na utilização de cadastros, solicitações recorrentes de
documentos, e esclarecimentos; prestação de contas que pode
levar anos; erros e atrasos em outras etapas que
prejudicaram a captação de recursos.
5
1. Introdução:
Criminalização Burocrática das OSC
6
O intuito da chamada sobre Criminalização Burocrática das OSC é apoiar
as OSC para que desenvolvam pesquisas de forma independente ou em
parcerias com núcleos de estudos e pesquisas (de universidades ou de
organizações da sociedade civil) no desenvolvimento de ações/pesquisas
sobre criminalização burocrática das OSC.
Um fenômeno que recentemente tem ganhado notoriedade em
relatórios de instituições multilaterais e na academia é o estreitamento
do ambiente de atuação da sociedade civil (closing or shrinking civic
spaces: Anheier, Lang & Toepler, 2018; CIVICUS, 2021).
As formas como esse encolhimento do espaço de atuação das OSC se
manifestam vão desde medidas legais e administrativas, até difamação,
intimidação e violência. O Monitor CIVICUS, em 2021, mostrava o Brasil
como um país com ambiente obstruído para atuação da sociedade civil,
significando que:
O espaço cívico é fortemente contestado pelos
detentores do poder, que impõem uma combinação de
restrições legais e práticas ao pleno gozo dos direitos
fundamentais. Embora existam organizações da
sociedade civil, as autoridades estatais as prejudicam,
inclusive por meio do uso de vigilância ilegal, assédio
burocrático e declarações públicas degradantes. Os
cidadãos podem se organizar e se reunir pacificamente,
mas são vulneráveis ao uso frequente de força excessiva
por parte das agências de aplicação da lei, incluindo
balas de borracha, gás lacrimogêneo e bastões. Há algum
espaço para mídia não estatal e independência editorial,
mas, os jornalistas enfrentam o risco de ataques físicos e
acusações criminais de difamação que incentivam a
autocensura (CIVICUS, 2021).
No Brasil, o termo genérico utilizado para se referir a essas limitações de
atuação das OSC tem sido criminalização, (sem que necessariamente
ocorra um processo legal).
A Plataforma MROSC usou a expressão criminalização, durante a
campanha presidencial em 2010, para se referir ao ambiente desfavorável
existente no Brasil, o qual impactava, negativamente, na atuação dessas
organizações e na percepção da sociedade sobre o seu papel que
desempenhavam.
7
Em 2014, a ANDI- Agência de Notícias dos Direitos da Infância, publicou
um relatório com a análise da cobertura de mídia sobre as OSC. Nesse
contexto, estava ocorrendo, no noticiário, denúncias de desvios de
recursos públicos no Governo Federal. Com esse trabalho da ANDI,
identificou-se que na maior parte dos levantamentos havia a
individualização dos casos. No entanto, em uma quantidade menor, mas
ainda considerável de notícias, havia a generalização que tenderia a
associar a prática de corrupção ao setor como um todo.
Mesmo quando noticiadas de forma positiva, o foco individualizado e
fragmentado da cobertura não mencionava a importância geral das OSC
como pilar da democracia no país, nem seu importante papel na
complementação de políticas públicas e na inovação social.
Para a ANDI, a criminalização ficou evidente quando a mídia brasileira
noticiava a origem dos recursos das OSC. Na maior parte dos textos,
notava-se uma visão reducionista da relação entre OSC-poder público,
sobressaindo os aspectos negativos da relação: desvio de recursos, má
gestão, falta de transparência, vínculo político-partidário, falta de controle
social sobre atuação dessas instituições, fragilidades do marco
regulatório. Isso demonstra um desconhecimento e uma cultura de
pouca valorização da sociedade com relação as OSC, que ao fim, também
inclui os gestores públicos.
Outra organização internacional que faz o mapeamento do ambiente
para atuação das OSC, em especial os que repercutem no direito à
associação, é a International Center for Non Profit Law – ICNL, e o Brasil é
um dos diversos países mapeados por essa instituição. Em seu relatório
de 2019, a entidade destacou que em relação as essas entidades “O Brasil
tem sido submetido a inúmeros procedimentos administrativos e fiscais
que muitas vezes esgotam sua capacidade institucional”
(https://www.icnl.org/resources/civic-freedom-monitor/brazil).
Entre os procedimentos administrativos que destaca a ICNL tem-se desde
abrir conta em bancos, em que há modalidades específicas para receber
recursos públicos isentos de taxas, a procedimentos de monitoramento e
prestação de contas que, com frequência, obrigam as OSC a passarem
por auditorias, enviar relatórios ou apresentar documentos, de forma
desnecessária ou repetida, gerando custos administrativos em excesso.
Todos esses exemplos demonstram a cultura do desconhecimento, que
leva a um ambiente desfavorável para realização de parcerias e a
colaboração das OSC com o poder público.
8
No que diz respeito à prestação de contas, de acordo com Candice
Ferreira, articuladora da Plataforma MROSC-BA e representante da ELO
Ligação, “as OSC vivem sobrecarregadas por exigências diversas na
prestação de contas, documentos ou longa espera de retorno das
prestações de conta enviadas”
(http://plataformaosc.org.br/criminalizacao-burocratica-impactatrabalho-das-OSC-na-bahia/). Em relação à criminalização burocrática,
Santana (2019) a define como:
“Criminalização burocrática é o termo empregado para
designar o crescente grau de cobranças e exigências que
impactam ou inviabilizam os trabalhos das organizações da
sociedade civil em suas parcerias com os governos”.
(http://plataformaosc.org.br/criminalizacao-burocraticaimpacta-trabalho-das-OSC-na-bahia/)
Já segundo Lopes, Storto e Reicher (2019), a criminalização burocrática se
caracteriza, especialmente, pela via administrativo-burocrática e por meio
do enredamento em incontáveis procedimentos, que muitas vezes
drenam as capacidades de execução das OSC e se materializam na forma
de passivos fiscais ou administrativos.
Dessa forma, a criminalização burocrática sugere ter caráter sistêmico e
não intencional (mas que nos anos recentes tem se tornado intencional
em muitas frentes, amplificando e distorcendo ainda mais as falhas
administrativas e jurídicas existentes), e atentar contra liberdade de
associação e a liberdade de expressão.
Além das relações de parcerias, a criminalização burocrática também
pode ser identificada no escopo do acesso a recursos públicos via Leis de
Incentivo. O qual é fundamental, não apenas para as OSC envolvidas, mas
para que o poder público execute diversas ações no âmbito da
complementariedade ou suplementaridade de muitas das suas políticas
públicas (Mendonça, Medeiros & Araújo, 2019).
Umas das leis de incentivo mais utilizadas no Brasil pelas OSC é a Lei de
Incentivo ao Esporte (LIE), lei federal nº 438, sancionada em dezembro de
2006 e regulamentada em agosto de 2007 por meio do Decreto 6.180
(Matias et al. 2015). Segundo o painel da transparência da LIE
(https://paineis.cidadania.gov.br/public/extensions/lei-de-incentivo-v2/leide-incentivo-v2.html), de 2007 até a presente data já foram apresentados
21.176 projetos, sendo aportado mais de três bilhões de reais nesse
período.
9
Ao longo de quinze anos de existência, a LIE sofreu diversas mudanças
por meio de decretos e portarias, alterando as regras do processo que
envolve a apresentação dos projetos. Uma das portarias mais relevantes e
que alteraram de forma significativa os trâmites burocráticos
relacionados à LIE foi a de nº 424 de 2020. Nela são dispostos detalhes das
diferentes etapas relacionadas aos projetos: o cadastramento, a
admissibilidade e a tramitação dos projetos desportivos ou
paradesportivos; a captação de recursos e análise orçamentária desses
projetos; o monitoramento e acompanhamento da execução e do
cumprimento dos projetos aprovados e executados; as prestações de
contas de cumprimento de objeto e financeira, dentre outros detalhes.
Também no ano de 2020, foi implantado um novo sistema para o cadastro
da organização e admissibilidade dos projetos, o SLI, que é Sistema da Lei
de Incentivo.
Veremos mais adiante que algumas dessas mudanças ocorridas a partir
de 2020 influenciaram, positivamente, no emaranhado burocrático que
envolve a LIE. Por outro lado, perceberemos também que, situações de
criminalização burocrática que aconteciam antes de 2020 seguiram
acontecendo, a despeito das alterações nos processos. Em razão disso, o
objetivo da pesquisa foi justamente este, o de identificar casos práticos e
situações concretas de criminalização burocrática sofridas por
organizações esportivas proponentes da LIE, demonstrando que este
fenômeno incide na sua operacionalização.
Este recorte de pesquisa, pode ser amplificado para que se compreenda
outras situações envolvendo parcerias e colaborações entre OSC e o
poder público, conforme relatados em outros estudos (MONTANO, 2018;
LARA, 2020).
10
2. Metodologia e Caracterização
das Bases de Dados
11
Utilizamos três fontes de base de dados para mapear as organizações para
nossa amostra: o painel da transparência da LIE do Ministério da Cidadania
(https://paineis.cidadania.gov.br/public/extensions/lei-de-incentivo-v2/lei-deincentivo-v2.html);
o Mapa das OSC do IPEA; e a Plataforma da Signatárias MROSC.
2.1 Base de dados da Secretaria Especial do Esporte,
Ministério da Cidadania
Esta base foi utilizada para mapear as OSC que acessaram recursos via LIE.
Fizemos ainda um recorte dessa base, para selecionar apenas as que chegaram
à fase de prestação de contas, ou seja, somente as que de fato conseguiram
captar recursos e realizar os projetos foram consideradas. Entre 2007 e 2021
houve 6.331 organizações que tiveram projetos aprovados na LIE, dessas
apenas 1.538 (24%) receberam recursos.
Gráfico 1: Distribuição regional dos proponentes
que acessaram recursos da LIE
Fonte: dados da Secretaria Especial do Esporte. Elaboração própria.
12
Gráfico 2: Distribuição dos projetos nas manifestações
esportivas da LIE
Fonte: dados da Secretaria Especial do Esporte. Elaboração própria.
Gráfico 3: Distribuição dos projetos
incentivados de 2007 a 2020
Fonte: dados da Secretaria Especial do Esporte. Elaboração própria.
13
2.2 Base de dados do Mapa das OSC do IPEA
A partir da exploração do Mapa das OSC do IPEA, algumas análises
descritivas foram realizadas:
A quantidade de OSC que trabalham com Esporte e Cultura no Brasil:
essa pode ser considerada uma base mais próxima do universo de OSC
esportiva, embora outras OSC dessa mesma base possam ainda
trabalhar no campo esportivo.
Foram selecionadas apenas as que destacaram o esporte e a cultura
como área de atuação preponderante, que corresponde a 87.480
organizações. Depois fizemos cruzamento com as 1538 organizações da
base de dados anterior e identificamos que 171 apareciam em ambas
listas.
Gráfico 4: Distribuição geográfica das OSC
Fonte: dados do Mapa OSC do IPEA. Elaboração própria.
14
Gráfico 5: Distribuição regional das OSC
Fonte: dados do Mapa OSC do IPEA. Elaboração própria
2.3 Base de dados da Plataforma das OSC Signatárias MROSC
Foi realizado o cruzamento das organizações signatárias da Plataforma
MROSC com a listagem das organizações identificadas a partir da
listagem da LIE. A partir daí identificamos quinze OSC que apareceram em
ambas as listagens, ou seja, da Plataforma MROSC e da LIE .
15
2.4 Questionário e contatos
A partir do mapeamento das organizações esportivas, buscou-se
construir um banco de dados com e-mail e telefone para aplicação dos
questionários da pesquisa. Os contatos foram coletados,
individualmente, por meio de buscas na internet pelo nome e/ou CNPJ
da organização.
Foi desenvolvido um questionário de pesquisa buscando enfatizar as
dificuldades em diferentes etapas de proposição, como acesso a
recursos e prestação de contas da LIE. Foi realizada também uma
caracterização das Organizações respondentes. O questionário foi
validado, passando por rodada de sugestões com experts em pesquisa
e prática relacionada às OSC e ao campo esportivo.
Depois de validado, ele foi inserido no Google Forms e passou por
algumas respostas piloto para ajustes finais. O questionário foi
inicialmente divulgado em redes sociais (Facebook, Linkedin,
WhatsAPP) da entidade organizadora da pesquisa e seus financiadores
e através de contatos diretos com organizações próximas à fundação
organizadora. Além de ter sido realizada uma Live de divulgação da
pesquisa e do formulário no canal da fundação com a participação de
uma especialista jurídica sobre o assunto.
Apesar disso, o retorno de respondentes com essa estratégia foi aquém
do necessário para a pesquisa e, passou-se então, a ser feito contato
telefônico direto com as OSC da base de dados. Das 1538 da base que
haviam acessado a LIE e finalizado os projetos, foram contatadas, por
telefone ou email, cerca de 600 OSC. Após esse esforço, foram obtidas
sessenta respostas e dessas, dez foram excluídas por não atenderem os
requisitos mínimos e as cinquenta restantes foram tidas como válidas.
16
A amostra é considerada não probabilística, podendo conter viés por
conta das redes e acessos para preenchimento que foram utilizadas
pelos pesquisadores. Não sendo possível realizar generalizações a partir
dessas respostas.
A análise qualitativa das questões abertas do questionário identificou
preenchimento de respostas que tinham relatos do que foi
caracterizado como criminalização burocrática.
Foram selecionados cinco respondentes dessas questões e em seguida
realizados contatos por telefone ou WhatsApp para que pudessem
aprofundar as dificuldades pelas quais passaram e como foram
resolvidas.
Também foi realizado um encontro online, no dia 19 de Agosto de 2022,
para o qual foram convidados todos os cinquenta respondentes do
questionário, assim como experts e especialistas em criminalização
burocrática. Os respondentes que participaram puderam relatar outros
casos e situações de criminalização burocrática que sofreram em suas
organizações ao acessarem a LIE. Os experts e especialistas
comentaram a pesquisa e compararam seus dados com outros estudos
já realizados sobre o tema (ex.: Associação Brasileira de Organizações
Não Governamentais – ABONG, 2022). As informações coletadas nesse
encontro online foram adicionadas à versão final do texto.
17
3. Resultados da Survey com as OSC
18
A maior parte dos respondentes localizava-se no estado de SP (46%).
Foram para essas organizações que foi priorizado o contato telefônico,
devido à concentração de OSC que acessaram recursos nesse estado.
Em seguida vem MG (22%), RS (12%) e RJ (8%). Conforme o Gráfico 6,
é na Região Sudeste, também, que se concentram 50% do total dos
proponentes da LIE.
Gráfico 6: Em qual Estado/Unidade da
Federação a organização atua?
Fonte própria.
Mais da metade dos respondentes possuía receita anual entre R$
360.000,00 e 4.800.000,00 (51%), podendo ser consideradas
rganizações médias, com algum nível de estrutura administrativa.
Apenas 18,4% podem ser consideradas OSC grandes, com receita
anual superior à média. E, 30,6% são organizações muito
pequenas com receita anual inferior a R$ 360.000,00.
19
Os respondentes possuem experiência com LIE,
sendo proponentes há pelo menos 5 anos (63%)
e 34,7% executaram mais de 10 projetos
(Gráficos 7 e 8).
Gráfico 7: Há quantos anos a organização é proponente de
projetos esportivos e/ou paradesportivos na LIE?
Fonte própria.
Gráfico 8: Quantos projetos a organização
já executou pela LIE?
Fonte própria.
20
O gráfico 9 mostra que a maior parte das manifestações
esportivas que receberam apoio da LIE foram de Educacional e
Participação. Os projetos de Alto Rendimento e Formação de Alto
Rendimento foram a minoria.
Gráfico 9: Em qual(is) manifestação(ões) esportiva(s) a
organização já propôs projetos pela LIE? (questão 4)
Fonte própria.
21
Nas etapas envolvidas na realização de projetos na LIE, a captação
de recursos foi de longe a que os respondentes demonstraram
maior dificuldade. A qual não tem, necessariamente, relação com a
criminalização burocrática, mas com o perfil dos projetos e
interesses das empresas, bem como, disponibilidades de rede de
contatos e consultorias para captação.
Nos quesitos relacionados à criminalização burocrática, a maior
dificuldade foi experimentada na análise orçamentária e execução
orçamentária, bem como, a prestação de contas
(Gráfico 10).
Gráfico 10: Qual(is) etapa(s)
do projeto a organização encontrou mais dificuldade na LIE
Fonte própria.
22
Na etapa de cadastro e elaboração do projeto, as OSC assinalaram que
precisaram “Contratar pessoa ou empresa especializada” para auxiliar
nessa etapa (42%), como também, “Adaptar ou atualizar documentação
para conseguir realizar o cadastro” (26%). Muitos desses documentos
são solicitados novamente no momento da celebração do Termo de
Compromisso, gerando custos dobrados. Ainda, 12% das OSC relataram
a necessidade de realizar cadastros repetidos, ou demonstrar registros
em outros órgãos (14%).
Gráfico 11: Sobre a etapa cadastro e elaboração
do projeto, a organização precisou
Fonte própria.
23
Sobre a etapa de aprovação (celebração do projeto), 38% das OSC
continuaram assinalando necessidade de assessoria especializada, e 30%
continuam relatando problemas com documentação que implicaram ter
projeto rejeitado. Nesta etapa, documentos enviados em etapas anteriores
são rotineiramente solicitados novamente. Exemplo desses documentos
são as declarações: declaração de inexistência de vínculo profissional entre
o atleta e a entidade; declaração de não enquadramento nas vedações
previstas nos Arts. 37, 61 e 62 da Portaria nº 424/2020; declaração de
inexistência de recursos incentivados para manutenção e organização de
equipes ou competições profissionais; declaração de que a proponente
não possui capacidade de atrair investimentos; declaração de inexistência
de sobreposição de recursos financeiros. Abaixo, apresentamos a parte de
um ofício demonstrando esse tipo de solicitação.
Figura 1 – Parte de ofício solicitando declaração já apresentada anteriormente
24
Ainda uma pequena porção dos respondentes (8%) relatou dificuldade em
“comprovar capacidade técnico operativa para o cumprimento do objeto
proposto” (Gráfico 12).
Gráfico 12: Sobre a etapa aprovação do
projeto, a organização: (questão 10)
Fonte própria.
25
Na captação de recursos, a necessidade de “contratar pessoa ou
empresa especializada para auxiliar nesta etapa” foi maior que nas
etapas anteriores (62%).
Muitos não conseguem captar recursos (40%), por conta de não
terem assessoria ou de não conseguirem empresa interessada no
projeto (Gráfico 13).
O mais problemático aqui é que 32% dos respondentes não
captaram recursos por conta de atraso na análise do projeto (o
orçamento das empresas fecha em geral em outubro/ novembro) ou
por erros no processo por parte da administração pública. Esses
últimos itens têm relação indireta com a criminalização burocrática.
Gráfico 13: Sobre a captação
de recursos, a organização
Fonte própria.
26
Na etapa de análise orçamentária e execução do projeto, continua aparecendo
necessidade de “contratar pessoa ou empresa especializada para auxiliar nesta
etapa” (36%).
A criminalização burocrática aparece nas demandas repetidas de
reenvio de documentos ainda válidos (26%) e respostas a questionamentos já
respondidos (40%).
A gestão financeira do projeto na LIE também se torna complexa e com baixa
flexibilidade, uma vez que 28% assinalaram que “Teve dificuldade com os trâmites
de remanejamento de recursos, prorrogação do prazo de execução ou utilização
dos recursos remanescentes” e “Teve ações orçamentárias (elementos de
despesas) glosadas do projeto pela ausência de orçamento(s)” (14%). Uma pequena
parte das organizações (8%) já teve a adequação do plano de trabalho para o valor
captado, rejeitada. Isso significa que conseguiram captar o percentual mínimo
exigido pela LIE e, após ajustar o plano de trabalho para esse valor, ele foi rejeitado
pela administração pública. (Gráfico 14)
Gráfico 14: Sobre a etapa análise orçamentária
e execução do projeto, a organização: (questão 14)
Fonte própria.
27
A demora nas respostas quanto à prestação de contas é um dos grandes
problemas relacionados aos projetos que utilizaram a LIE. Visto que, 70%
assinalaramdemora de mais de dois anos para receber o parecer final, sendo
que 18% relataram levar mais de oito anos; e, 12% mais de quatro anos (Gráfico
15). Além disso, 16% dos respondentes relataram ainda que prestações de
contas antigas, muitas vezes, apresentam questionamentos difíceis de serem
respondidos (Gráfico 16); e, 22% tiveram que realizar devolução de recursos
utilizados por meio da LIE, atualizados com a aplicação de correção monetária
e juros de mora, com isso, pretendendo cobrar da OSC os juros sobre o
período de tempo que a própria Administração Pública levou para avaliar a
prestação de contas apresentada (gráfico 15).
Gráfico 15: Quanto tempo a administração pública já levou
para enviar o parecer final de alguma de suas
prestações de contas?
Fonte própria.
28
Gráfico 16: A administração pública já apresentou questionamentos
difíceis de serem respondidos de prestações de contas antigas?
Fonte própria.
Por fim, para cada uma das etapas do projeto, citadas anteriormente, foi
perguntando se as experiências relatadas teriam acontecido antes do ano
de 2020, depois do ano de 2020, antes e depois do ano de 2020 ou se o
respondente não tinha assinalada resposta alguma na referida etapa.
Resolvemos acrescentar essas questões em seguida a cada etapa para
avaliar se as alterações feitas na LIE e em seus processos haviam surtido o
efeito desejado pela administração pública, ou seja, melhorar e agilizar os
processos. De acordo com as respostas desta pesquisa, em relação ao
cadastro e elaboração do projeto, aprovação do projeto e captação de
recursos, a maioria dos respondentes relatou que as dificuldades
aconteceram antes do ano de 2020, o que indica que as mudanças
melhoraram os processos. Em relação à análise orçamentária e execução, a
maioria dos respondentes relatou que as dificuldades aconteceram antes e
depois de 2020, ou seja, apesar das mudanças, as dificuldades e problemas
continuam acontecendo. A respeito da prestação de contas, a maioria
assinalou que não tinham respondido nenhuma alternativa nessa etapa.
29
4. Análise das Entrevistas
30
Conforme comentado anteriormente, foram selecionados 5
respondentes, com base nas respostas e situações relatadas no
questionário e, em seguida, realizados contatos por telefone ou
WhatsApp para que pudessem aprofundar situações relatadas em suas
respostas. Abaixo, as situações relatadas no questionário e alguns
comentários da conversa via telefone/WhatsApp.
4.1 Situações Organização 1
Durante a etapa de análise orçamentária, a organização precisou
consultar/interagir com diferentes técnicos da Secretaria do Esporte. No
mesmo projeto, ou ainda, em projetos de anos diferentes, não era
incomum ter retornos diferentes para uma mesma questão, ou ainda,
comentários e exigências distintos de um ano para outro, a depender do
técnico que analisava o projeto na administração pública.
A organização contratou pessoa ou empresa especializada para auxiliar
nesta etapa, a fim de adaptar ou atualizar a documentação para
conseguir realizar o cadastro (elaboração do projeto, aprovação, captação
e prestação de contas)A organização teve de reenviar documentos já
enviados em etapas anteriores que ainda estavam válidos, assim como
responder questionamentos de itens já demonstrados anteriormente no
projeto (análise orçamentária).
31
Um exemplo de diligência pode ser visto na cópia do documento abaixo:
Figura 2 – Ofício com exemplo de diligência
32
A organização precisou, também, contratar pessoa ou empresa
especializada para auxiliar nessa etapa, pois, teve dificuldade com os
trâmites de remanejamento de recursos, prorrogação do prazo de
execução ou utilização dos recursos (execução).
Este é um dos proponentes que passou por uma espera de mais de oito
anos para receber o parecer final da prestação de contas do projeto.
Durante esse tempo, precisou responder questionamentos difíceis e está
aguardando novo parecer após diligência. Depois de tanto tempo, pode
ser difícil manter ainda documentos referentes ao projeto. Muitas vezes a
equipe da organização já mudou.
“Como aprendizado é que devemos
tomar muito cuidado com dinheiro
público, ficar muito atentos para não
ter problemas. Há prestação de
contas antigas que até hoje não
receberam respostas.”
4.2 Situações Organização 2
Novamente a questão de prazo para análise de relatórios financeiros
foi apontada. O entrevistado relata ter necessitado de consultoria
especializada nesta etapa. Segundo ele, atua há muitos anos com a LIE,
já teve inúmeras situações das quais teve que apresentar recurso para
alguma diligência. Em algumas delas a situação se resolveu na esfera
administrativa, já em outras tiveram que recorrer judicialmente. Houve
um caso em que a prestação de contas foi rejeitada e não ficaram nem
sabendo, não foram comunicados e o nome da organização foi para o
CADIN. Depois que recorreram conseguiram reverter.
Mas isso gerou problemas e custos desnecessários. Nesse caso, ainda, a
administração pública solicitou a devolução de recursos e o processo
ficou paralisado durante dez anos e o governo efetuou a cobrança de
juros e correção monetária do período.
Segundo o entrevistado, por outro lado, “os prazos para os proponentes
são estreitos e há punições em casos de atraso”.
Esse foi outro caso que esperaram mais de oito anos para receber
relatório final de prestação de contas em que dministração pública
também apresentou questionamentos difíceis de serem respondidos de
prestações de contas antigas, como reapresentação de notas,
comprovantes, que já haviam sido enviados.
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4.3 Situações Organização 3
Reitera-se aqui a necessidade de preencher cadastros repetidos, bem como,
demonstrar registro em diferentes órgãos, que muitas vezes causam
indeferimento do projeto.
Além de documentação também houve projeto rejeitado por dificuldade em
comprovar capacidade técnica. Não há um guia ou padronização para realizar
esta comprovação. Também precisou responder questionamentos de itens já
demonstrados anteriormente em outras etapas do projeto.
Este proponente também já perdeu recursos por conta da morosidade da
análise e aprovação de projetos, pois a administração pública extrapolou o prazo
de análise. Isso era mais comum antes de 2020, nesses casos, o patrocinador
acabava esistindo do apoio.
Antes de 2020, a dificuldade com os trâmites de remanejamento de recursos,
prorrogação do prazo de execução ou utilização dos recursos remanescentes no
projeto era mais comum, não havia prazo para resposta, havendo a necessidade
de aprovações em muitas instâncias. Depois de 2020, para a maior parte das
situações, o processo foi simplificado podendo ser aprovado pelo próprio setor
que acompanha o projeto, sem necessidade de outras tramitações.
A administração pública já apresentou questionamentos difíceis de serem
respondidos de prestações de contas antigas (com mais de 7 anos de demora).
Levantar toda a documentação, analisar os tópicos apontados e responder às
diligências depois tanto tempo torna-se um desafio para muitas OSC que não
dispõe de uma estrutura administrativa exclusiva para acompanhamento de
projetos. Novamente, neste caso houve solicitação de devolução de recursos,
com juros e mora, do qual a entidade recorreu, ainda sem resolução.
“O principal ponto de crítica foi a
demora para receber diligência e
questionamentos de prestação de
contas antigas. Houve um caso recente
que recebemos questionamentos de um
projeto executado em 2011 (tiveram que
ir ao arquivo morto). Outros casos de
prestações que foram enviadas há 4 ou 5
anos. Muitas vezes a equipe já mudou e
isso dificulta nas respostas a serem
dadas.”
34
4.4 Situações Organização 4
A organização precisou contratar pessoa ou empresa especializada para
auxiliar nas etapas de cadastro, elaboração, aprovação do projeto, captação
de recursos, análise orçamentária e execução, além de prestação de contas.
Houve experiência com demora de mais de 8 anos para receber parecer final
de prestação de contas:
“A organização decidiu encerrar totalmente suas atividades e
os problemas que tiveram com diligências, burocracia, com
certeza influenciaram nesta decisão. Um dos principais
problemas é a morosidade que levam para analisar as
prestações de contas. Estamos recebendo pareceres de 2008,
2010. As diligências são apresentadas cobrando a devolução
de valores e nestes há embutidos juros de todo o período que
o próprio ministério levou para analisar a prestação de contas.
Depois de tanto tempo as equipes que executaram os
projetos não são as mesmas, não se tem mais contato.”
A entidade contratou uma assessoria jurídica para tratar do caso, e
encaminhou pedido de revisão, que ainda encontra-se em análise.
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4.5 Situações Organização 5
Teve experiência com cadastros, envio de documentação e resposta a
questionamentos recorrentes em diferentes etapas do projeto.
Constantemente contrata assessoria para captação de recursos.
Já perdeu recursos por conta da morosidade da análise e aprovação
de projetos e, também, por conta de erro da administração pública.
Neste caso, a conta bancária, que é aberta pelo ministério, chamadas
conta captação (para os patrocinadores realizarem o aporte), estava
com erro impossibilitando o recebimento do aporte.
O patrocinador havia depositado o recurso e recebeu o aviso de erro. A
solicitação do proponente junto ao ministério para verificação, demorou
para ser realizada, extrapolando o ano fiscal dos patrocínios, que não
pode mais realizar o aporte.
Antes de 2020 relatou muitas dificuldades com os trâmites de
remanejamento de recursos, prorrogação do prazo de execução ou
utilização dos recursos remanescentes que melhoraram
depois de mudanças de 2020.
Constantemente surgem elementos de despesas glosadas nos projetos,
o que difere de técnico para técnico que fazem a análise. Em um dos
casos, o técnico glosou a despesa de compra de troféus e medalhas, por
que interpretou não ser cabível no projeto educacional, apenas no de alto
rendimento. Sendo que, a distribuição de medalhas e troféus em projetos
esportivos educacionais possui função pedagógica, já bem sedimentada
na área.
A administração pública já apresentou questionamentos
difíceis de serem respondidos de prestações de contas antigas
em diferentes ocasiões, obrigando a entidade a contratar
consultoria jurídica para auxiliá-la. Em uma das prestações
de contas, a administração pública solicitou a devolução de
recursos utilizados por meio da LIE, com juros e correção
monetária, o qual, após recurso elaborado por assessoria jurídica,
conseguiu reverter.
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“Sempre encontramos dificuldade na captação de recursos,
principalmente captar integralmente. Na análise orçamentária
e execução, existe uma burocracia muito grande, sempre cada
técnico fazendo análises diferentes. Por fim, na prestação de
contas, já tivemos questionamentos que levaram muitos anos
para serem realizados (depois de muito tempo que tínhamos
protocolado a prestação de contas), sendo que alguns deles, o
próprio ministério havia cometido equívoco.
Sem dúvida um dos principais problemas é o tempo que
levam para encaminhar os pareceres das prestações de
contas. Um caso que aconteceu conosco foi que recebemos
parecer do ministério rejeitando uma de nossas prestações de
contas, alegando que não tínhamos enviado. O que aconteceu
foi que eles perderam as que tínhamos enviado alguns anos
antes e no meio do auge da pandemia, quando estávamos em
homeoffice, nos oficiaram para que enviássemos novamente
em 30 dias. Nós enviamos, mas não em 30 dias. Passados 6
meses nós recebemos o comunicado que nossas contas
tinham sido rejeitadas pelo não envio da prestação de contas
e que nosso acesso ao sistema da LIE seria bloqueado.
Conseguimos reverter a situação por termos tudo
documentado e com o auxílio de assessoria jurídica.”
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Abaixo, o ofício pedindo o reenvio da documentação em trinta dias.
Figura 3 – Oficio solicitando envio de documentos no prazo de 30 dias
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5. Relatos do encontro online
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Durante o encontro online, mencionado acima, os especialistas
em criminalização burocrática comentaram a pesquisa e alguns
participantes do encontro, representantes de organizações esportivas,
relataram algumas situações que ocorreram em suas organizações
referentes à LIE
5.1 Comentário especialista
Este especialista fez uma relação dos resultados encontrados nesta
pesquisa e na pesquisa da ABONG, também sobre a criminalização
burocrática, porém, com outro viés. Há em comum entre os resultados
das pesquisas o fato dos fenômenos encontrados não serem individuais
e sim coletivos, sendo parte de uma estrutura burocrática e uma cultura
institucional que impõem dificuldades e barreiras que geram ônus ou
passivos para as organizações.
“Ajuda a entender que não são fenômenos individuais,
existe uma estrutura, uma arquitetura burocrática que
independe, inclusive, da pessoa do servidor público, se a
pessoa tem mais boa vontade ou menos boa vontade, se
ela quer nos perseguir ou não. Quer dizer, independente
do indivíduo que está na administração pública, existe
uma estrutura estabelecida e uma cultura institucional
estabelecida que faz com que haja um tratamento ou
tratamentos repetitivos no sentido de estabelecer mais
dificuldades, mais barreiras, mais impedimentos ou que
gera ônus, passivos para as organizações da sociedade
civil. Então, é muito importante pesquisas como essas,
porque elas vão revelando que existe um padrão coletivo
de comportamento da administração pública que afeta
coletivamente as organizações da sociedade civil, não são
casos isolados.”
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