O documento a seguir apresenta como o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) pode respaldar parcerias mais horizontais entre investidores e iniciativas comunitárias a partir do estudo de caso da Fundação AMAGGI.
O texto percorre uma série de experiências voltadas ao desenvolvimento institucional de organizações sociais, onde até então a Fundação AMAGGI vivia um momento de inflexão. Desde a pandemia, toda a equipe vinha acompanhando o papel fundamental desempenhado por iniciativas comunitárias e a necessidade de fortalecê-las. Junto com essa constatação, havia a percepção de que, para que essas iniciativas conseguissem acessar mais recursos, seria necessário reorganizar a forma de fazer parcerias.
A experiência demonstra que a qualidade das relações é parte essencial da desburocratização e da flexibilidade que esse tipo de investimento requer. Ainda, o alinhamento com políticas públicas nacionais — construídas de forma participativa, como a Lei MROSC —, somado ao fortalecimento da missão de cada iniciativa em sua comunidade, revela-se uma condição decisiva para a construção de uma sociedade civil mais forte, autônoma e capaz de sustentar transformações duradouras.
Acompanhe o estudo completo logo abaixo.
Texto completo (transcrição)
MROSC COMO
REFERÊNCIA PARA
O GRANTMAKING:
O CASO DA
FUNDAÇÃO AMAGGI
A experiência da Fundação AMAGGI mostra como o
Marco Regulatório das Organizações da Sociedade
Civil (MROSC) pode respaldar parcerias mais horizontais
entre investidores e iniciativas comunitárias.
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EXPEDIENTE
Realização
Plataforma por um Novo Marco Regulatório das Organizações da
Sociedade Civil – Plataforma MROSC
www.plataformaosc.org.br
mroscplataforma@gmail.com
Instagram – @plataformamrosc
Comitê Facilitador
Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong)
Cáritas Brasileira
Elo Ligação e Organização
Fundação Grupo Esquel Brasil
Grupo de Empresas, Institutos e Fundações (GIFE)
União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias (Unicopas)
Organização
Adriana Salles Mariano | GIFE
Gustavo Bernardino | GIFE
Apoio
Ananda Hadah | GIFE
Marcela Leal | GIFE
Pamella Canato | GIFE
Gestoras do caso relatado
Aletéa Rufino e Josandra Rocha | Fundação AMAGGI
Entrevistados
Andreia Fujioka e Eder Ramos | Secretária de Estado de Agricultura Familiar do Mato Grosso (SEAF-MT)
Carolina Barros | Instituto Inrede
Ozinaldo Pena Santiago | ASCCLA
Pesquisa, texto e vídeos
Fernanda Zanelli | Consultora
Comunicação
Clicia Roberta Fernandes | Cáritas Brasileira
Claudio Trindade | Cáritas Brasileira
Natália Passafaro | GIFE
Projeto gráfico e diagramação
Marina Castilho
Publicação
Junho/2026
Este documento foi elaborado pelo GIFE – Grupo de Institutos,
Fundações e Empresas,com a participação financeira da União
Europeia. O seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva dos
autores, não podendo, em circunstância alguma,considerar-se
que reflete a posição da União Europeia.
Realização:
Execução:
Associada:
Em 2023, diante de uma série de experiências voltadas ao desenvolvimento
institucional de organizações sociais, a Fundação AMAGGI vivia um momento
de inflexão. Desde a pandemia, toda a equipe vinha acompanhando o papel
fundamental desempenhado por iniciativas comunitárias e a necessidade
de fortalecê-las. Junto com essa constatação, havia a percepção de que,
para que essas iniciativas conseguissem acessar mais recursos, seria
necessário reorganizar a forma de fazer parcerias.
“A gente sempre teve conversas sobre a burocracia
versus a responsabilidade pelo uso dos recursos
geridos pela Fundação, especialmente na prestação de
contas e nos modelos de editais. Quando começamos
a acompanhar o debate sobre a decolonização
da filantropia, se falava muito em flexibilidade e
confiança nas relações institucionais. Então, a gente
se perguntava: como ser flexível se também somos
uma Fundação que presta contas ao Ministério
Público, aos mantenedores e a toda a sociedade? Foi
aí que encontramos a solução a partir do MROSC, que
permitiu que a gente estudasse o que, de fato, a lei
poderia trazer de oportunidades de mudança.”
ALETÉA RUFINO
GERENTE DE INVESTIMENTO SOCIAL DA FUNDAÇÃO AMAGGI
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Nunca se falou tanto sobre desigualdades e medidas urgentes para
promover a descentralização de recursos. No campo da filantropia, a tônica
da decolonização chegou com fôlego ao debate, sendo, inclusive, tema
das edições mais recentes do Congresso GIFE. Para muitos gestores
do Investimento Social Privado (ISP), acompanhar a questão consolida a
certeza de que há muitas mudanças a serem feitas e que, entre elas, está
a transição de um modelo de doação centrado no controle para outro que
priorize parcerias mais horizontais e baseadas na confiança. Mas como
fazer isso?
Para a equipe da Fundação AMAGGI, ao mesmo tempo em que se
reconheciam as possibilidades de melhoria dos processos, também
pairava internamente o receio de que ser mais flexível pudesse representar
riscos jurídicos para a Fundação. A ironia é que a resposta que a Fundação
encontrou para esse impasse se inspirou na própria legislação brasileira.
A ATUAÇÃO DA FUNDAÇÃO AMAGGI
EM GRANTMAKING
Um dos principais aprendizados que este caso traz é que, quando se trata
de Investimento Social Privado, os acertos são pontos de culminância em
uma trajetória, frutos de experiências que se sustentam no longo prazo e
que permitem observar o que deve permanecer e o que deve ser ajustado.
Há 18 anos, a Fundação atua no fortalecimento de organizações sociais
por meio de incentivos financeiros e da oferta de formações para esse
público. Entre as ações de destaque realizadas entre 2015 e 2019,
estavam o Projeto Transformar, dedicado ao apoio de organizações sociais,
e o Prêmio Potencializa, voltado ao reconhecimento e incentivo de práticas
que contribuem para o desenvolvimento local.
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Em 2020, durante a crise sanitária provocada pelo vírus da Covid-19,
a situação exigiu a criação de ações que pudessem fazer frente à
emergência instaurada nos territórios. Mais do que nunca, a parceria
com as organizações de base comunitária se tornou vital para que os
recursos repassados alcançassem a população mais afetada. Nessa fase,
em conjunto com outros atores do campo — como o Sesc Mesa Brasil,
a Central Única de Favelas (CUFA), a Federação das Indústrias do Estado
de Mato Grosso (FIEMT) e organizações de diferentes naturezas, como
igrejas evangélicas, sindicatos rurais etc. —, implementaram-se iniciativas
com foco na segurança alimentar.
Em 2021, em colaboração com a Fundação Itaú, foi realizado um Edital de
apoio às organizações sociais nas áreas de educação, saúde e assistência,
visando contribuir para o pagamento das equipes que estavam sob risco
de descontinuidade de contrato devido às instabilidades orçamentárias
causadas pela pandemia.
Para a Fundação AMAGGI, todas essas experiências contribuíram para que
a lógica de atuação em aspectos estruturais das organizações ganhasse
mais relevo em seu portfólio de investimento. As ações emergenciais, por
sua vez, também permitiram maior contato com agentes locais diversos,
o que demonstrou a potência dessas iniciativas e a necessidade de
fortalecê-las.
Ainda em 2021, foi realizado um diagnóstico com 170 Organizações da
Sociedade Civil (OSCs) para coletar subsídios sobre como desenvolver
capacidades organizacionais. A partir disso, ao longo de um ano e quatro
meses, foram ofertadas 60 horas de formação para 111 organizações
ativas na trilha formativa. Para aquelas que completaram 80% da proposta,
atribuiu-se o Selo Conhecer, um mecanismo de reconhecimento para as
participantes mais engajadas.
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Com base nessa experiência, nasceu o primeiro Edital focado em
desenvolvimento institucional: o Desenvolver para Fortalecer. Além de
impulsionar as OSCs da porta para dentro, havia a intenção de, a partir
delas, promover o desenvolvimento do território, o que colaborou para
que os Conselhos de Direito também fizessem parte desse chamamento.
Ao todo, foram selecionados 78 proponentes, entre OSCs e Conselhos. As
linhas de apoio se dividiram em: 1) Estrutura e Tecnologia; 2) Regularização
administrativa, financeira e fiscal; 3) Aprimoramento de gestão; e 4) Redes
de conhecimento. As faixas de valores de aporte variaram de acordo com
cada linha, sendo: as linhas 1 e 2 fixadas entre 5 mil e 15 mil; a linha 3, de
20 mil a 40 mil, e a linha 4, com o maior volume de investimento, entre 50
mil e 100 mil.
Com o Edital ainda em andamento, alguns pontos já demonstraram a
necessidade de revisão. Os Conselhos de Direito, por exemplo, embora
fossem atores-chave nos territórios, demonstraram baixo engajamento
nas atividades propostas, o que levou à descontinuidade da parceria com
esse público.
Ao final da implementação, restou a percepção de que as mudanças
necessárias não se esgotariam nos ajustes do Edital. Seria indispensável
uma reflexão mais profunda: a revisão da relação com as organizações,
coletivos e movimentos sociais do território, tendo como base a
confiança.
As dificuldades enfrentadas na prestação de contas foram um dos principais
pontos que levaram a essa conclusão. De acordo com o Edital, o recurso
foi dividido em três parcelas, e os repasses estavam condicionados à
aprovação da prestação de contas das etapas anteriores. Como o tempo
de execução da proposta era de nove meses, isso significou que, a cada
três meses, novos ciclos de prestação de contas se iniciavam. Levando
em consideração a grande quantidade de iniciativas, o fluxo tornou-se
complexo e com sobrecargas de trabalho tanto para os proponentes
quanto para a própria Fundação.
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Em paralelo, a Fundação AMAGGI já vinha acompanhando as discussões
sobre desenvolvimento institucional e também as pautas em torno do
MROSC. Por meio da parceria com a Fundação Itaú, conheceu o programa
Missão em Foco — voltado ao fortalecimento institucional de OSCs em
cinco anos e com rubricas orçamentárias flexíveis — e também dialogou
com a Fundação Tide Setubal, para mapear formas de viabilizar o apoio a
coletivos e movimentos sociais que atuam por meio do registro de pessoa
física.
Todo esse movimento, combinado com o que vinham aprendendo com as
próprias experiências, colocou a Fundação numa jornada de aprimoramento
de suas práticas.
“Em 2023, nos propusemos a fazer uma grande
revisão dos nossos processos de parceria, tendo o
Marco Regulatório como farol. Todos os integrantes
da equipe da Fundação, incluindo profissionais das
áreas da AMAGGI que dão suporte à Fundação, como
jurídico e compliance, fizeram um curso sobre o Marco
Regulatório das Organizações da Sociedade Civil. Com
todas as áreas compreendendo a mensagem principal
da lei, que é a orientação para resultados, fizemos um
painel para identificar os pontos a serem revistos.
Ainda que a legislação trate principalmente das
parcerias entre as OSCs e o poder público, ela foi uma
referência importante para nos respaldar e contribuir
para a construção desse alinhamento interno, que foi
fundamental para viabilizar todas as mudanças que
vieram depois.”
ALETÉA RUFINO
GERENTE DE INVESTIMENTO SOCIAL DA FUNDAÇÃO AMAGGI
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POR DENTRO DO MROSC,
UM PARÊNTESE NECESSÁRIO
A Lei nº 13.019/2014, atualizada pela Lei nº 13.204/2015,
foi o resultado de uma mobilização do campo das
Organizações da Sociedade Civil em busca de respaldo
jurídico para aprimorar a relação com o setor público. Em
2010, essa agenda já ganhava notoriedade no país por
meio de uma carta-compromisso envolvendo mais de
100 OSCs, denominada Plataforma por um Novo Marco
Regulatório, ou Plataforma MROSC, como é denominado
o site da iniciativa.
Antes mesmo de o MROSC ser sancionado em 2014,
explicitando o reconhecimento dos diferentes tipos de
relação entre OSCs e Estado (colaboração, fomento e
cooperação), o Decreto nº 8.244/2014 tornou possível
o pagamento de equipes por meio de parcerias — um
gargalo histórico para a sustentabilidade das OSCs.
A relevância deste novo regime jurídico estava na
definição de critérios para a alocação de orçamento, bem
como na priorização do controle por resultados, e não
mais pelo gasto linha a linha, como até então era realizado.
Para dar consistência a essa análise de resultados, a lei
definiu ainda um conjunto de parâmetros para a atribuição
do nível de eficácia das ações.
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Diante desse cenário, a pergunta que fica é: se o MROSC
traz tantos pontos para tornar a relação com o poder
público mais equilibrada, por que, após mais de uma
década da sua sanção, esses avanços ainda não são
percebidos na realidade?
A resposta para essa questão está na forma como a lei
vem sendo regulamentada nos estados e municípios e em
como essas regulamentações se desdobram em práticas
na administração pública.
A pesquisa Marco Regulatório das Organizações da
Sociedade Civil: avanços e desafios, lançada em 2025
pelo Grupo de Institutos e Fundações Empresariais (GIFE),
em parceria com a Coordenadoria de Pesquisa Jurídica
Aplicada (CPJA) da FGV Direito SP, fez um importante
exercício de analisar a aderência dos decretos publicados
pelos entes federados à legislação, já que cabe a eles
o detalhamento da lei e a adaptação dela às realidades
locais.
O estudo identificou que, embora algumas normativas
estivessem em consonância com o Marco Regulatório
e até apresentassem boas práticas em determinadas
áreas, certos pontos dos textos publicados por estados
e municípios ainda permaneciam desalinhados.
A imposição de mecanismos de controle na forma como a
OSC se relaciona com prestadores de serviços foi um dos
achados recorrentes, ferindo o princípio da autonomia
que a lei estabelece. Dos 31 decretos analisados, 17
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apontavam o uso de sistemas de prestação de contas
incompatíveis com o novo regime jurídico, além de exigirem
controle financeiro em detrimento do foco em resultados.
A solução para que as mudanças da legislação saiam
do gabinete e comecem a transformar as relações na
prática passa pelo diálogo constante entre agentes do
setor público e gestores sociais, sedimentando ajustes
na rotina da administração pública, que é onde, de fato, a
realidade acontece.
É nesse sentido que a ampla difusão dos marcos da lei
não pode ser mais adiada. Em 2025, o governo publicou
o Manual MROSC: do planejamento à prestação de
contas, um documento que preza pela compreensão do
aparato jurídico e divulga procedimentos que padronizam
a gestão de parcerias, permitindo maior segurança jurídica
aos gestores públicos e privados.
Em razão desse compromisso, o GIFE permanece como
integrante da Plataforma MROSC, apoiando o avanço
dessa legislação no país por meio do Projeto Plataforma
para Defesa e Fortalecimento das Organizações da
Sociedade Civil, financiado pela União Europeia e realizado
pela Cáritas Brasileira, em parceria com a ELO, a Fundação
Esquel Brasil, UNICOPAS e o GIFE. Entre os objetivos
desse projeto está a sistematização de práticas exitosas
para o fortalecimento de organizações sociais a partir
do MROSC, como é o caso da experiência da Fundação
AMAGGI aqui apresentada.
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DIÁLOGO COM A GESTÃO PÚBLICA
Outro aprendizado desta experiência foi o diálogo entre o Investimento
Social Privado e a administração pública, já que a construção das rotinas
para a celebração de parcerias alinhadas ao MROSC gerou benefícios
mútuos.
Andreia Fujioka é secretária de Estado de Agricultura Familiar de Mato
Grosso (SEAF-MT), mas, antes disso, atuou na regulamentação do MROSC
em todo o estado pela Secretaria de Planejamento. Mato Grosso foi um dos
primeiros no país a emitir o decreto, em março de 2016, e, desde então, a
regulamentação já passou por diversas atualizações, sendo a Instrução
Normativa Conjunta nº 002.2026, de 24/02/2026, a mais recente.
A lei representou uma mudança importante na maneira como o poder
público se relaciona com as Organizações da Sociedade Civil.
“A legislação diferenciou a natureza das organizações sociais e tirou
delas toda uma burocracia que era exigida tal qual se cobrava de outros
órgãos do Estado. Esse foi um processo de descriminalização burocrática
que muitas vezes acontecia. O papel das OSCs é auxiliar naquilo que o
município ou o Estado não consegue fazer efetivamente, por isso o papel
delas é fundamental”, afirma a secretária.
Na avaliação de Andreia, a lei contribuiu para consolidar uma lógica de
cooperação mútua e também para desonerar as equipes da administração
pública, ao deslocar o foco para o cumprimento do objeto da parceria.
Ao mesmo tempo, ela ressalta que a execução desse modelo exige o
atendimento de critérios importantes, como a elaboração de planos
de trabalho consistentes, com orçamento aprovado e, sobretudo,
monitoramento efetivo — algo que, em muitos casos, ainda é um grande
desafio para a gestão pública.
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Para Eder Ramos, analista de Desenvolvimento Econômico e Social da
Superintendência de Desenvolvimento Rural da SST/SEAF, as dificuldades
também passam pela necessidade de qualificação das OSCs na elaboração
de projetos coerentes com suas expertises. Esse ponto se torna
especialmente sensível em secretarias que firmam parcerias voltadas a
serviços técnicos e de infraestrutura, como é o caso da SEAF.
O diálogo entre a SEAF e a Fundação AMAGGI tem avançado no
compartilhamento de experiências voltadas à formação de gestores
sobre o tema, além de também promover trocas sobre caminhos possíveis
para tornar as rotinas administrativas mais aderentes ao que a legislação
estabelece.
A Fundação também contribui sistematicamente com o debate em
torno da implementação do MROSC no setor público por meio de sua
participação no Conselho Nacional de Fomento e Colaboração (CONFOCO)
Centro-Oeste, como uma das instituições articuladoras. As mudanças
implementadas nos editais da Fundação AMAGGI, com ênfase no MROSC,
também potencializaram a própria divulgação da legislação.
“Uma das razões para todo o desenho do projeto
ser baseado no MROSC é fazer com que as
organizações e lideranças também se apropriem da
legislação. Como atuamos com muitas iniciativas
em estágio inicial de maturidade, é comum que não
estejam tão familiarizadas com ela. Então, parte do
desenvolvimento institucional é conhecer a fundo o
MROSC, para também cobrar o cumprimento da lei na
relação com a administração pública.”
ALETÉA RUFINO
GERENTE DE INVESTIMENTO SOCIAL DA FUNDAÇÃO AMAGGI
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O MODELO DE ATUAÇÃO EM
DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL
“De cada 100 OSCs de assistência social abertas no país, 49 encerram
suas atividades”, afirma um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea). Lançado em 2023, o documento Dinâmicas
do terceiro setor no Brasil: trajetórias de criação e fechamento de
Organizações da Sociedade Civil de 1901 a 2020 analisa estatisticamente
a sobrevivência das organizações sociais brasileiras ao longo da história.
Não por acaso, são justamente as instituições ligadas à assistência social
— fortemente enraizadas no trabalho comunitário — as que apresentam
maior índice de encerramento de suas atividades em comparação com
iniciativas de outras áreas.
O estudo reforça a importância das OSCs para a consolidação da democracia
e para a oferta de serviços em territórios onde a política pública não
alcança. Também indica que a principal causa de encerramento dessas
organizações está relacionada à sustentabilidade financeira. Esse quadro
foi agravado não apenas pela conjuntura econômica e política — marcada,
por exemplo, pela retração da atuação de organismos internacionais no
país nos anos 2000 e pelos efeitos da crise de 2008 —, mas também
pelas condições estruturais de precarização que atingem grande parte
dessas instituições.
Quando se trata do acesso a recursos por meio de editais, as dificuldades
são significativamente maiores para organizações em estágio inicial de
maturidade. A pesquisa realizada pela Iniciativa PIPA, em parceria com
a Phomenta, mostra que 59% das organizações classificadas pela
pesquisa como sendo de nanoporte — isto é, que não possuem pessoas
contratadas — não obtiveram sucesso na disputa por recursos entre
2021 e 2023. No mesmo período, entre as organizações classificadas
como médio e grande porte, com mais de sete pessoas contratadas, 80%
conseguiram ser selecionadas em editais.
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Apesar de gerar estranhamento, não possuir vínculos formais de trabalho
é uma situação comum para a maioria das OSCs brasileiras. Segundo o
estudo Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil – 2016 a 2025,
realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 80% das
organizações pesquisadas tinham essa condição, dado que sublinha a
precarização institucional que elas precisam enfrentar.
É nesse contexto que o desenvolvimento institucional das iniciativas
sociais, sobretudo de natureza comunitária, torna-se premente.
Tradicionalmente, no Investimento Social Privado, esse tipo de atuação
costuma ser associado a maior risco, já que, diferentemente de um projeto
que resulta em entregas mais tangíveis, o trabalho voltado à gestão, ao
planejamento e ao fortalecimento organizacional nem sempre se traduz em
produtos visíveis de forma imediata. Além disso, trata-se de um processo
que não combina com controle excessivamente minucioso nem com
apoios esporádicos.
Ainda que existam tais inseguranças, já é tempo de superá-las. Para
promover soluções sociais sustentáveis, alinhadas às realidades de
quem delas participa, é indispensável que a governança dos recursos e a
definição de prioridades não sejam impostas por agentes externos, por
mais que essa construção esteja longe de ser simples.
Foi nesse espírito, de empreender mudanças e lidar com os novos desafios
que a maturidade da atuação poderia trazer, que a Fundação AMAGGI
lançou, em 2023, o Edital de “Seleção de organizações, movimentos
sociais e coletivos para o fortalecimento de capacidades institucionais”.
O Edital recebeu 276 inscritos de 17 estados do país. Ao final, foram 32
iniciativas selecionadas, que seguiram na parceria ao longo dos três anos.
Para a Fundação AMAGGI, o desenvolvimento institucional proposto passa
por indagações cruciais — e nem sempre confortáveis para os proponentes
—, como: quem é essa organização em termos de identidade? Qual é
seu propósito maior na sociedade? São perguntas que conduzem esses
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gestores a se reconectarem com a missão institucional de origem e a
reconhecerem a potência do próprio trabalho, algo que muitas vezes se
perde diante da necessidade constante de adaptação às oportunidades
de captação de recursos.
OS TRÊS PRINCÍPIOS
(1) Atuação com iniciativas de base comunitária
Se a realização de aportes institucionais de longo prazo não é a forma de
atuação mais comum entre financiadores, essa abordagem é ainda mais
rara quando se trata desse tipo de parceria com iniciativas em nível inicial
de maturidade.
Entre os princípios-base que norteiam o trabalho da Fundação AMAGGI
está a ideia de democratizar o acesso aos recursos, viabilizando a
participação de experiências sociais que historicamente não são
selecionadas para receber apoios públicos ou de Fundações/Institutos,
justamente pela fragilidade em aspectos de gestão.
O enfoque de atuação no desenvolvimento dessas organizações,
coletivos e movimentos é também imprescindível pelo fato de a Fundação
não atuar nas áreas que concentram maior investimento, o que também
se reflete na fragilidade dessas iniciativas.
“Algumas premissas são inegociáveis para a Fundação,
como a ideia de trabalhar com as organizações de
base comunitária, para que elas acessem outros
editais. Mas, para isso, elas precisam ser fortalecidas
internamente, e isso só pode acontecer se elas tiverem
um lugar de protagonismo”
JOSANDRA ROCHA
ANALISTA DE PROJETOS SOCIAIS DA FUNDAÇÃO AMAGGI
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(2) Sociocracia como pilar metodológico
O conceito de sociocracia tem relação com uma governança
compartilhada, em que não se busca o consenso, mas a convergência de
ideias comuns para que se possa avançar. É nesse sentido que, no caso
da Fundação AMAGGI, alguns processos foram moldados para atender
às expectativas e aos interesses dos participantes. Essa perspectiva
dialógica permeou principalmente os processos de formação e de
mentoria, que funcionam como eixo central das atividades.
“A gente desenhou processos com base no que o
território trouxe pra gente. Então, toda a jornada
formativa em desenvolvimento institucional acolheu
as temáticas eleitas pelo grupo. Em 2021, esse
levantamento foi feito por meio de um formulário e
a partir das informações coletadas pelo Edital. Em
2023, evoluímos para uma abordagem de cocriação,
realizada no próprio encontro com eles.”
JOSANDRA ROCHA
ANALISTA DE PROJETOS SOCIAIS DA FUNDAÇÃO AMAGGI
(3) Exercício constante da flexibilidade
A construção de vínculos de confiança é indispensável para o avanço
de uma parceria voltada ao desenvolvimento institucional. Em razão do
histórico de criminalização das organizações da sociedade civil, esses
atores nem sempre encontram ambientes seguros para reconhecer suas
fragilidades, enfrentá-las e corrigi-las. Sobretudo na interlocução com
investidores, prevalece a retórica centrada na valorização de resultados
positivos.
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Essa lógica, porém, não se sustenta diante de uma proposta de qualificação
de processos estruturais. Para que esse vínculo se consolide, são
necessárias abertura e capacidade de escuta para perceber os abalos
do campo, bem como sensibilidade para responder ao caráter dinâmico
da atuação de organizações e movimentos nos territórios. Isso não
significa, por outro lado, aprovar alterações repentinas sem justificativa
consistente. Antes, pressupõe que cada mudança decorra de escolhas
conscientes e da intencionalidade das ações implementadas.
A flexibilidade também orienta a maneira como a própria Fundação
conduz seus processos. Ao revisar continuamente suas práticas, a
Fundação AMAGGI se reconhece, ela mesma, como uma instituição em
amadurecimento, assim como as iniciativas que apoia.
ESTRATÉGIAS DO DESENVOLVIMENTO
INSTITUCIONAL
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O Tangram é um jogo de origem chinesa formado por sete peças
geométricas que, rearranjadas de múltiplas maneiras, permitem compor
milhares de figuras. De modo semelhante, os elementos que integram
o percurso de desenvolvimento institucional proposto neste caso não
se organizam de forma rígida nem obedecem, necessariamente, a uma
sequência linear. A ideia é combiná-los da melhor maneira de acordo com
o resultado a que se pretende chegar.
Um bom exemplo é que, embora a jornada tenha início com o preenchimento
do Diagnóstico de Maturidade Institucional, esse instrumento é
retomado em outros momentos, assim como o Plano de Desenvolvimento
Institucional (PDI) também volta à cena sempre que oportuno.
Como a vida prática está longe de ser simétrica, o diagrama não pretende
reproduzir a exatidão do jogo, mas sugerir um conjunto de estratégias
que podem ser compostas de diferentes formas na construção de um
processo de amadurecimento organizacional.
Nesse percurso, há ainda um espaço aberto para a criação de estratégias
capazes de responder ao que emerge sem aviso, reconhecendo que as
experiências apoiadas estão em permanente movimento. O ponto de
interrogação na imagem é o lembrete de que o inesperado sempre fará
parte do processo: é o princípio da flexibilidade que a própria realidade se
encarrega de evocar.
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DIAGNÓSTICO DE MATURIDADE
INSTITUCIONAL
Trata-se de uma matriz composta por dez dimensões que indicam o nível de
maturidade de cada iniciativa. As dimensões são as mesmas abordadas
pelo MROSC, com o objetivo de alinhar o diagnóstico a essa referência
tanto quanto possível. Cada uma é formada por perguntas que conduzem
a uma pontuação. Ao final, a organização respondente identifica seu nível
de maturidade entre inicial, intermediário e avançado.
Por sua relevância formativa, a versão não mediada do Diagnóstico de
Maturidade Institucional está disponível no site da Fundação como um
instrumento permanente de autoavaliação. Além disso, ele também ajuda
a mapear o perfil de iniciativas que poderão se tornar parceiras no futuro.
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PLANO DE DESENVOLVIMENTO
INSTITUCIONAL (PDI)
O PDI é uma estratégia que permite às OSCs, coletivos e movimentos
organizarem suas prioridades e a alocação de recursos no curto, médio
e longo prazo, orientando suas escolhas pelo cumprimento da missão
institucional, e não pelas urgências de atendimento.
Com base nos resultados do Diagnóstico de Maturidade Institucional,
especialmente nas dimensões identificadas como mais frágeis, a proposta
indica as áreas em que o processo será concentrado.
No Edital de 2023, as iniciativas contaram com cerca de seis meses para
participar de atividades formativas em grupo e de mentorias voltadas à
elaboração do PDI, para, só depois, receberem os repasses. Isso se deve
ao fato de que um dos diferenciais dessa abordagem está justamente
em não fixar previamente as rubricas orçamentárias, que são definidas
somente após o tempo necessário de reflexão, alinhamento interno e
delimitação das áreas a serem desenvolvidas.
TRILHA FORMATIVA, MENTORIAS
E INTERCÂMBIOS
Nesta experiência, a jornada formativa se desdobrou em diferentes frentes.
Uma delas foi a dos encontros on-line, organizados a partir de temas
escolhidos pelo próprio grupo participante. Entre os diversos assuntos
trabalhados, estavam: Desafios da Formalização e Informalidade; Gestão
de Processos; Sustentabilidade Financeira; Governança e até Conceitos
e Diretrizes do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil
(MROSC). A programação também incluiu encontros presenciais por região,
o que permitiu aproximar debates, contextos e realidades territoriais.
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Outro eixo importante foi o das mentorias personalizadas, voltadas tanto à
reflexão sobre o diagnóstico e à elaboração do PDI quanto ao enfrentamento
de gargalos técnicos identificados pelas próprias iniciativas, como gestão,
comunicação e governança. A jornada também apostou no aprendizado
entre pares, por meio de intercâmbios que estimularam a circulação de
experiências entre grupos com desafios e interesses semelhantes. Esses
encontros aconteceram de forma autônoma, organizados pelas próprias
iniciativas, ou com mediação dos consultores do projeto.
A PERSPECTIVA DE INICIATIVAS
PARTICIPANTES
Instituto Inrede
O Instituto Inrede é uma das organizações já apoiadas
pela Fundação AMAGGI e está presente na região do
Araguaia, em São Félix do Araguaia, Pantanal, Cuiabá e
Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso. O trabalho é
focado em juventudes, mulheres e crianças, com recorte
intencional de gênero e raça, para “cuidar de um futuro
justo e sustentável”, conforme declara a instituição em
sua comunicação.
Segundo Carolina Barros, diretora-geral do Instituto, os
recursos recebidos no Edital da Fundação AMAGGI, em
2021, foram fundamentais para a reformulação do site,
a elaboração da identidade visual e o planejamento
estratégico. Já no Edital de 2023, voltado à realização
de um projeto específico, também foi possível promover
melhorias institucionais vinculadas à iniciativa apoiada,
especialmente na área de infraestrutura. O resultado
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demonstra que, quando há relação de confiança e
pertinência no uso dos recursos, é possível impulsionar
simultaneamente o projeto e a instituição.
Carolina ressaltou ainda que a flexibilidade orçamentária
foi vital para que a OSC fosse capaz de responder com
agilidade às demandas dos territórios. No caso do Inrede, o
processo de fortalecimento não se restringiu à organização,
mas transbordou efeitos para outros coletivos e iniciativas,
em razão de sua atuação como Pontão de Cultura.
De acordo com a diretora-geral, outro avanço foi a ampliação
da capacidade de incidência do Instituto junto ao poder
público. Hoje, a organização atua de forma mais incisiva na
defesa da aplicação do MROSC e de práticas sistemáticas
de escuta das instituições da sociedade civil. Carolina
chama atenção para o fato de que muitas OSCs ainda são
criminalizadas ou vistas com desconfiança, cenário que
produz insegurança no acesso a editais públicos.
“Temos que distinguir erro de dolo. A maior
parte das organizações que apresentam algum
tipo de erro ou fragilidade nos processos de
prestação de contas o faz muito mais por
desconhecimento do que com a intenção de
lesar a máquina pública.”
CAROLINA BARROS
DIRETORA-GERAL DO INSTITUTO INREDE
Para Carolina, esse contexto exige caminhos baseados
em formação, escuta ampliada e instâncias participativas
que reconheçam a experiência das iniciativas que atuam
diretamente nos territórios.
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ASCCLA
A Associação de Produtores Rurais da Comunidade de
Corpo de Cristo do Lago do Agostinho (ASCCLA), sediada
em Itacoatiara, no Amazonas, encontrou no Edital uma
possibilidade até então distante de sua realidade: acessar
um volume significativo de recursos com flexibilidade de
uso. Segundo o relato do professor Ozinaldo — como é
conhecido Ozinaldo Pena Santiago, Vice-Presidente da
Associação —, justamente por parecer pouco compatível
com a experiência cotidiana da ASCCLA, em um primeiro
momento, a oportunidade foi recebida com desconfiança
pelos sócios.
A própria configuração da ASCCLA como Associação
também trouxe especificidades para a experiência, já que
decisões e planejamento dependiam do alinhamento entre
os mais de 30 produtores rurais que integram a entidade.
Para o professor Ozinaldo, a devolutiva do Diagnóstico de
Maturidade Institucional foi um divisor de águas, por ter
sido a primeira vez em que se parou para refletir sobre os
rumos que deveria seguir como instituição.
Ele também avaliou como fundamental que o tempo dedicado
aos encontros e às mentorias para o preenchimento do PDI
tenha sido antes do recebimento dos recursos, pois esse
processo permitiu que a Associação se preparasse para
investir de forma mais estratégica.
Segundo seu relato, a conquista de um escritório para
a Associação teve impacto imediato no sentimento
de valorização do trabalho já realizado, o que fez toda a
diferença. Da mesma forma, as capacitações promovidas
pelo projeto contribuíram para alinhar a compreensão dos
sócios sobre temas ligados ao seu cotidiano.
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“Temos que distinguir erro de dolo. A maior
parte das organizações que apresentam algum
tipo de erro ou fragilidade nos processos de
prestação de contas o faz muito mais por
desconhecimento do que com a intenção de
lesar a máquina pública.”
OZINALDO PENA SANTIAGO
VICE-PRESIDENTE DA ASCCLA
SÍNTESE DOS APRENDIZADOS
“Ficar com o problema requer aprender a estar verdadeiramente
presente”, diz Donna J. Haraway sobre a crise climática e política que
afeta todos os seres da Terra. A filósofa destaca que, mais do que projetar
futuros apocalípticos ou grandes salvações, nossa tarefa como sociedade
é enxergar a realidade pela lente das relações e compreender que não há
saída possível que passe ao largo do fazer coletivo.
O caso de grantmaking da Fundação AMAGGI é um exemplo concreto de que
fazer junto implica buscar, de forma contínua, o equilíbrio das assimetrias
de poder entre financiador e financiado. Ao se reconhecer também
como uma organização em processo de amadurecimento, a Fundação
contribui para a construção de uma atmosfera de confiança, na qual
os erros podem ser reconhecidos como parte legítima do percurso
de aprendizagem.
Nos três anos de parceria com as 32 iniciativas comunitárias, a Fundação
AMAGGI já percebe avanços significativos em algumas dimensões de
maturidade institucional trabalhadas pelas participantes. O processo de
escuta e monitoramento realizado com representantes das 32 iniciativas
em 2026 indicou que, na percepção das próprias organizações, coletivos
e movimentos, os principais avanços ocorridos durante o projeto foram
nas seguintes dimensões:
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1. Capacidade técnica e gestão do conhecimento: correspondendo a
25% das áreas apontadas como fortalecidas, foi a dimensão mais citada
entre os pesquisados. O dado evidencia o aprimoramento das capacidades
técnicas das equipes e a qualificação dos projetos a partir de formações,
assessorias e aprendizados construídos no cotidiano das iniciativas.
2. Governança: com 18,8% das menções, a governança aparece
como a segunda dimensão mais citada. O avanço está relacionado ao
fortalecimento de práticas de gestão mais eficientes e transparentes, com
maior clareza nos processos de prestação de contas e nos mecanismos
de tomada de decisão participativa.
3. Sustentabilidade financeira: mencionada em 15,6% das respostas,
essa dimensão aponta para progressos na busca por maior estabilidade
financeira das iniciativas. Entre os avanços percebidos estão a ampliação
das estratégias de captação e diversificação de recursos, a elaboração
de projetos mais consistentes, a transparência na prestação de contas
e o fortalecimento da gestão financeira.
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“A gente observa avanços em diferentes dimensões.
Uma delas é a capacidade técnica e a gestão do
conhecimento. Muitas iniciativas fortaleceram
suas equipes por meio das capacitações do próprio
processo, o que ajudou a qualificar os projetos. Na parte
de gestão do conhecimento, muitas estruturaram
seus canais de comunicação para publicar relatórios
e outras produções. Outra dimensão que cresceu
muito foi a governança, inclusive em casos como o
da ASCCLA, em que os sócios passaram a se alinhar
mais em torno do propósito da instituição. Também
percebemos avanços em sustentabilidade financeira.
Algumas iniciativas se formalizaram, organizaram
sua documentação e aprimoraram a prestação de
contas, o que contribuiu para acessar novos recursos.
Houve até organizações que se destacaram tanto em
determinadas dimensões que a própria Fundação
passou a contratá-las para contribuir na formação de
outras.”
JOSANDRA ROCHA
ANALISTA DE PROJETOS SOCIAIS DA FUNDAÇÃO AMAGGI
Ainda sobre os resultados alcançados, como se trata de um investimento
estrutural no desenvolvimento dessas iniciativas, a Fundação avalia que
a forma mais indicada de aferir o impacto da parceria é por meio de uma
avaliação de médio e longo prazo, algo que também planeja realizar como
próxima etapa.
A flexibilidade como princípio possibilitou, de um lado, a construção de
processos de seleção mais abertos, com diferentes arranjos de parceria,
capazes de ir além dos editais tradicionais e de acolher as organizações em
sua diversidade. De outro, permitiu procedimentos de repasse e prestação
de contas menos enrijecidos, para que os recursos cumprissem seu
propósito original: promover o fortalecimento das organizações sociais
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e, como consequência, potencializar suas atividades-fim nos territórios.
A experiência demonstra que a qualidade das relações é parte essencial da
desburocratização e da flexibilidade que esse tipo de investimento requer.
Ainda, o alinhamento com políticas públicas nacionais — construídas de
forma participativa, como a Lei MROSC —, somado ao fortalecimento da
missão de cada iniciativa em sua comunidade, revela-se uma condição
decisiva para a construção de uma sociedade civil mais forte, autônoma
e capaz de sustentar transformações duradouras.
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