A intenção desta edição especial do BAPI visa fornecer um panorama amplo de questões que permeiam o debate sobre a dinâmica de funcionamento das OSCs para aqueles e aquelas interessados em estabelecer um primeiro contato com o tema, assim como sensibilizar e tornar formuladores e gestores públicos mais atentos ao potencial e aos desafios que compreendem as articulações existentes entre Estado e OSCs. Pretende-se, dessa forma, explicitar a agenda de pesquisa em andamento em torno do tema para pesquisadores e estudiosos potencialmente interessados em discutir as OSCs, em suas diversas dimensões, a partir da multiplicidade de dados e estatísticas disponíveis sobre o setor no país.
Texto completo (transcrição)
CAPA_BAPI_20.pdf 2 12/07/2019 10:13:49
Boletim de Análise
Político-Institucional
Organizações da Sociedade Civil no Brasil
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Junho 2019
Boletim de Análise
Político-Institucional
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Junho 2019
ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE
CIVIL NO BRASIL
Rio de Janeiro, 2019
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Governo Federal
Ministério da Economia
Ministro Paulo Guedes
Boletim de Análise
Político-Institucional
Organizadora:
Janine Mello
Fundação pública vinculada ao Ministério da Economia,
o Ipea fornece suporte técnico e institucional às ações
governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras
políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros –
e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados
por seus técnicos.
Presidente
Carlos von Doellinger
Diretor de Desenvolvimento Institucional, Substituto
Manoel Rodrigues dos Santos Junior
Diretor de Estudos e Políticas do Estado,
das Instituições e da Democracia
Alexandre de Ávila Gomide
Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas
José Ronaldo de Castro Souza Júnior
Diretor de Estudos e Políticas Regionais,
Urbanas e Ambientais
Aristides Monteiro Neto
Diretor de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação
e Infraestrutura
André Tortato Rauen
Diretora de Estudos e Políticas Sociais
Lenita Maria Turchi
Diretor de Estudos e Relações Econômicas
e Políticas Internacionais
Ivan Tiago Machado Oliveira
Assessora-chefe de Imprensa e Comunicação
Mylena Fiori
Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria
URL: http://www.ipea.gov.br
Comitê Editorial
Daniel Cerqueira
Acir dos Santos Almeida
Erivelton Pires Guedes
Mauricio Mota Saboya Pinheiro
Salvador Teixeira Werneck Vianna
Luana Simões Pinheiro
Leandro Freitas Couto
Aguinaldo Nogueira Maciente
Igor Ferraz da Fonseca
João Cláudio Basso Pompeu
Mauro Santos Silva
Graziela Ferrero Zucoloto
Bruno Queiroz Cunha
André Sampaio Zuvanov
Priscila Koeller Rodrigues Vieira
© Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – ipea 2019
Boletim de Análise Político-Institucional / Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada. – n.1 (2011) - . Brasília : Ipea,
2011Semestral.
ISSN 2237-6208
1. Política. 2. Estado. 3. Democracia. 4. Periódicos.
I. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
CDD 320.05
As publicações do Ipea estão disponíveis para download gratuito nos formatos PDF
(todas) e EPUB (livros e periódicos). Acesse: http://www.ipea.gov.br/portal/publicacoes
As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade
dos autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada ou do Ministério da Economia.
É permitida a reprodução deste texto e dos dados nele contidos, desde que citada
a fonte. Reproduções para fins comerciais são proibidas.
A obra retratada na capa deste vigésimo Boletim de Análise
Político-Institucional é a tela Abstrato, de Candido Portinari (1903-1962),
datada de 1954. Além da inegável beleza e expressividade de suas
obras, Portinari tem importância conceitual para um instituto de
pesquisas como o Ipea. O “pintor do novo mundo”, como já foi
chamado, retratou momentos-chave da história do Brasil, os ciclos
econômicos e, sobretudo, o povo brasileiro, em suas condições de vida
e trabalho: questões cujo estudo faz parte da própria missão do Ipea.
A Diest agradece ao Projeto Portinari pela honra de usar obras do artista
em sua produção.
Direito de reprodução gentilmente cedido por João Candido Portinari.
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Sumário
Apresentação………………………………………………………………………………………………………………… 5
Janine Mello
SEÇÃO I – O que sabemos sobre as organizações da sociedade civil? Estudos sobre o perfil
das OSCs e mecanismos de fortalecimento da transparência no Brasil
Aspectos Metodológicos do Estudo As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos
no Brasil (FASFIL)……………………………………………………………………………………………………….. 15
Clician do Couto Oliveira
Denise Guichard Freire
Francisco de Souza Marta
Investimento Social Privado: um campo cada vez mais diverso……………………………………………………. 25
Erika Sanchez Saez
Graziela Santiago Belo da Silva
A Tecnologia por Trás do Mapa das Organizações da Sociedade Civil………………………………………….. 33
Tiago Nascimento
Eric Ferreira
Kleyton Pontes Cotta
Vagner Praia
Tecnologias de Comunicação e Informação e Organizações da Sociedade Civil no Contexto da
Comunicação para o Desenvolvimento: uma análise exploratória inicial………………………………………… 41
Camila Escudero
SEÇÃO II – Trabalho nas OSCs: avanços e desafios
O Trabalho das Mulheres nas Organizações da Sociedade Civil no Brasil: desigualdades e paradoxos…… 49
Graciela Hopstein
Martina Davidson
O Trabalho Formal nas OSCs em 2015: o perfil demográfico e a escolaridade dos vínculos
de trabalho………………………………………………………………………………………………………………… 57
Pedro Gomes Andrade
Felix Lopez
André Vieira
Ana Camila R. Pereira
(Des) Cumprimento da Lei de Cotas nas Organizações da Sociedade Civil. …………………………………….. 73
Laís Vanessa Carvalho de Figueirêdo Lopes
Stella Camlot Reicher
SEÇÃO III – Sustentabilidade das OSCs: estratégias e limites
Alguns Valores – e Muitos Problemas – para Estimar as Transferências de Recursos Públicos
para Organizações da Sociedade Civil no Brasil. …………………………………………………………………… 83
Felix Lopez
Pedro Gomes Andrade
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Doação e Cidadania: como pensa e age o doador brasileiro. ……………………………………………………… 91
Andréa Wolffenbüttel
Parcerias na Condução dos Investimentos Sociais: o que se extrai dos resultados do BISC?…………….. 107
Anna Maria Medeiros Peliano
Patricia Loyola
Negócios de Impacto e a Atuação Econômica das Organizações da Sociedade Civil. ……………………….. 117
Diogo de Sant’Ana
Beatriz Coppola
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Apresentação
Janine Mello1
O debate sobre o papel desempenhado pelas organizações da sociedade civil (OSCs)2 é longo,
complexo e repleto de inflexões e contradições. Compreendidas como uma forma institucional
específica que compõe a sociedade civil3 enquanto esfera societal mais ampla, as OSCs constituem
um conjunto heterogêneo de organizações com padrões múltiplos de interação entre si, em relação
ao Estado, ao mercado e aos demais atores da sociedade civil.
Centrada inicialmente na representação das OSCs enquanto atores orientados por pressupostos
virtuosos de solidariedade, voluntarismo, liberdade e autonomia, a literatura sobre a diversificação e atuação
das OSCs transformou-se na medida em que ocorriam a profusão e o fortalecimento dessas organizações,
assim como a complexificação de suas relações com os demais atores da esfera pública. Nos últimos anos,
as discussões sobre OSCs foram influenciadas por questões ligadas aos limites e avanços do papel assumido
por essas entidades como executoras de projetos e políticas de interesse público; ao aprimoramento de
mecanismos de responsabilização, prestação de contas (accountability) e transparência adotados pelo setor;
e aos esforços de mapeamento e descrição do perfil (ou perfis) das OSCs em atividade no país.
Vistas sob a ótica do fortalecimento da sociedade civil nas democracias contemporâneas, as OSCs
assumem papel central na diversificação das instâncias associativas, participativas e deliberativas que
compõem (ou deveriam compor) a esfera pública (Pateman, 1992; Dahl, 1997; 1998; Held, 1987; Lavalle,
Houtzager e Castello, 2012). Sob o viés da gestão pública, ora ganham contornos de parceiras estratégicas
do Estado na provisão de bens e serviços (Pires e Vaz, 2014; Lopez et al., 2015; Lopez e Barone, 2013;
Lopez e Abreu, 2014), ora são entendidas como responsáveis pela execução dispersa de projetos de pouca
escala e baixo impacto, alinhados com interesses de seus financiadores ou grupos que representam ou
vocalizam, e caracterizados por mecanismos frágeis de responsabilização e controle (Koslinski, 2013).
Sob a lógica do chamado terceiro setor,4 as OSCs são representadas como instância distinta
do Estado e do mercado, simultaneamente dotadas de elementos de aproximação com ambos. Essas
organizações se diferenciariam das iniciativas de mercado por serem “(…) mais orientadas para o bem
1. Especialista em políticas públicas e gestão governamental na Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia (Diest)
do Ipea. E-mail: <janine.mello@ipea.gov.br>.
2. Geralmente usados para tratar conjuntos similares de organizações, os termos organizações não governamentais (ONGs) e OSCs definem aquelas
organizações enquadradas simultaneamente em cinco critérios: i) são privadas e não estão vinculadas jurídica ou legalmente ao Estado; ii) não
possuem finalidades lucrativas; iii) são legalmente constituídas, possuem personalidade jurídica e inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica
(CNPJ); iv) são autoadministradas e gerenciam suas atividades de maneira autônoma; e v) são constituídas voluntariamente (IBGE, 2012; 2019;
Lopez, 2018). Nos últimos anos, o termo OSC tem sido adotado com maior frequência pela própria sociedade civil, por governos e por instituições
acadêmicas – influenciados, em grande medida, pelo debate acerca das transformações recentes pelas quais essas entidades passaram e sobre formas
mais apropriadas para defini-las. A adoção do termo OSC, além de mais adequada do ponto de vista técnico-legal, considerando que o termo ONG
não constitui figura jurídica de fato, também teria como objetivo desvincular a atuação das organizações da ação governamental, como contraponto
ou reforço, e explicitar que essas entidades seriam resultado da organização voluntária de indivíduos voltados para a promoção e defesa de direitos.
3. A despeito da vasta tradição teórica, a sociedade civil é entendida neste texto como instância que compõe a esfera pública em conjunto com o
Estado e o mercado, formada por atores individuais e coletivos, de maior ou menor grau de formalização, na qual estariam incluídos os movimentos
sociais e as OSCs. Para mais detalhes, ver Gohn (2011; 2013), Alonso (2009) e Scherer-Warren (2006).
4. “O termo terceiro setor tem sido empregado também para denominar as organizações formais sem fins lucrativos e não governamentais, com interesse
público. A sociedade civil inclui esse setor, mas também se refere à participação cidadã num sentido mais amplo” (Scherer-Warren, 2006, p. 110).
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comum”. Elas “visam à redução da desigualdade e discriminação, são identificadas com a ‘causa social’ e
contam com funcionários mais comprometidos ideologicamente com o trabalho” (Caldas, 2013, p. 128),
em detrimento de uma lógica voltada para o lucro enquanto finalidade.
No entanto, tenderiam a se aproximar de elementos positivamente atribuídos à iniciativa privada
como gestão empresarial e eficiência organizacional. Já em relação ao Estado, os aspectos de diferenciação
das OSCs não estariam vinculados a “(…) funções, atividades ou objetivos, mas às formas de execução
dessas atividades e funções” (Caldas, 2013, p. 130). As OSCs, nesse sentido, seriam consideradas mais
ágeis, flexíveis e abertas à inovação do que a estrutura estatal, e estariam mais próximas dos beneficiários
dos projetos ou das “bases”, favorecendo a melhor compreensão da realidade e dos problemas enfrentados
pela população local (Dysman, 2013; Caldas, 2013; Lima Neto, 2013).
Sob o escrutínio da população em geral, as OSCs podem simultaneamente ser vistas com o
ceticismo e a desconfiança fomentados pela divulgação frequente de relações não republicanas com
agentes estatais – ou, de maneira oposta, como instituições responsáveis por ações de filantropia,
voluntariado e apoio a causas “nobres”, ligadas à redução da pobreza, à agenda de cuidados, ao foco
em públicos específicos e a interesses difusos como a pauta ambiental (IDIS, 2015).
Por fim, sob seus próprios olhos, é razoável supor a existência de uma profusão de percepções,
considerando a heterogeneidade que caracteriza as mais de 820 mil OSCs em atividade no Brasil5
e as maneiras com que se identificam em relação às demais organizações formais e informais que
constituem a sociedade civil (Krieger e Andion, 2014; Reis, 2013; Caldas, 2013; Lima Neto, 2013).
Enquanto algumas tendem a se reconhecer como organizações de advocacy voltadas para ações de
defesa de direitos, em especial aquelas surgidas entre as décadas de 1970 e 1980, outro grupo seria
mais identificado por exercer atividades ligadas à provisão de serviços, caso das OSCs constituídas no
período após a década de 1990 (Kaldor, 2003). Diferenciações entre as próprias OSCs não devem
ser tomadas como categorias fixas ou rígidas, na medida em que a construção de suas identidades
e sentidos de ação é permeada por disputas e conflitos discursivos, políticos e sociais que marcam
profundamente a percepção dessas organizações sobre seus papéis e posições no campo mais amplo
da sociedade civil (Medeiros, 2013; Pires e Vaz, 2014).
A dualidade surge, nesse sentido, como característica marcante do ideário construído em torno
das OSCs. Em parte das análises, essas organizações desempenham papel crucial na ampliação da
capilaridade das políticas públicas, complementam a atuação governamental de maneira mais eficiente
e contribuem para uma maior adesão das iniciativas à realidade local vivenciada por territórios e suas
populações (Dysman, 2013; Caldas, 2013; Lima Neto, 2013). De outro modo, são apresentadas, ainda,
em conjunto com os movimentos sociais, como atores-chave para entender o processo de democratização
e a crescente permeabilidade do Estado em relação às demandas sociais específicas capazes de provocar
mudanças, ampliar direitos e aperfeiçoar mecanismos de representação e transparência pública (Lavalle e
Barone, 2015; Avritzer, 2007; 2012; Dagnino, 2002; 2004; Reis, 2013; Gohn, 2013).
Em contrapartida, são vistas como organizações que contribuem para a fragmentação e a
dispersão das políticas em contextos de redução das responsabilidades do Estado sobre a provisão de
bens públicos, mobilizando montantes significativos de recursos que não estariam adequadamente
submetidos ao controle e ao monitoramento amplo da sociedade (Montaño, 2002; Violin, 2006; 2008;
5. Dado encontrado em Lopez (2018) e na plataforma Mapa das OSCs, disponível em: <https://mapaosc.ipea.gov.br/>.
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Apresentação
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Nogueira, 2003; Alvarez, 2009; Petras, 1999; Lavalle e Bueno, 2013). No rol das críticas à atuação
das OSCs, figurariam também contradições inerentes à própria esfera civil, em que fenômenos como
a “mercantilização da sociedade civil” – em contextos de redução do Estado – e a “burocratização
da sociedade civil” – em cenários de ampliação das articulações com a esfera estatal – são vistos
como riscos à autonomia e à liberdade da atuação dessas organizações (Baião, Peci e Costa, 2015;
Teixeira, 2002; Caldas, 2013; Burity, 2005; Medeiros, 2013).
A despeito do cenário complexo no qual estão situados os estudos e as frentes de pesquisa
sobre o tema, é possível argumentar que três questões de fundo perpassam as principais vertentes
interpretativas sobre as OSCs no país. A primeira delas tem como cerne o antigo e polêmico debate
sobre limites e possibilidades das relações entre Estado e OSCs, em que são discutidos aspectos
como dinâmicas de contraposição, relações de interdependência, autonomia e dependência das
organizações. Em segundo lugar, é possível destacar análises dedicadas a compreender e detalhar a
própria atuação das OSCs, suas formas de gestão, mecanismos de financiamento, desenvolvimento de
projetos, desafios e avanços recentes, resultados e impactos gerados, entre outros. E, por último, ganha
relevância a preocupação sobre a sustentabilidade das OSCs, que, embora ainda esteja fortemente
centrada na dimensão econômico-financeira, abarca uma ampla agenda de desafios e iniciativas em
curso com potencial para influenciar o futuro dessas organizações no país.
Dado esse contexto, a intenção desta edição do Boletim de Análise Político-Institucional (BAPI) é
contemplar distintas dimensões que compõem o debate sobre OSCs no país, privilegiando a diversidade
de perspectivas analíticas e institucionais. Para isso, foram reunidos pesquisadores e pesquisadoras de
diversas instituições, de modo a explicitar a complexidade que o debate sobre a atuação das OSCs tem
assumido no Brasil no período recente e os múltiplos esforços em andamento para ampliar, aprimorar e
qualificar o conhecimento produzido sobre o setor.
A produção de uma edição temática sobre o papel desempenhado pelas OSCs em pautas de interesse
público e suas formas de atuação – em parceria com setores públicos e privados, e no âmbito da própria
sociedade civil – dialoga tanto com a agenda de pesquisa que tem sido desenvolvida desde 2010 pelo Ipea
como com os recentes resultados divulgados pelo instituto por meio da plataforma Mapa das OSCs6 e da
publicação Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil (Lopez, 2018). Esta edição temática foi
também motivada pelas reflexões travadas no âmbito do grupo de conhecimento no investimento social
privado (ISP)7 e pretende difundir um conjunto de pesquisas recentemente concluídas ou em andamento,
as quais têm sido objeto de discussões entre inúmeras instituições envolvidas na produção de informações
e análises sobre a atuação das OSCs no país.
A publicação é composta por onze artigos, que foram divididos em três seções. A primeira, O que
sabemos sobre as organizações da sociedade civil? Estudos sobre o perfil das OSCs e mecanismos de
fortalecimento da transparência no Brasil, apresenta as principais fontes de informação sobre OSCs no
país que, em conjunto com o Mapa das OSCs e o Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil
(Lopez, 2018), constituem o panorama mais completo de dados sobre o setor na atualidade. O primeiro
6. Disponível em: <https://mapaosc.ipea.gov.br/>.
7. Iniciativa do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), criado em 2018 para debater a produção de dados e informações sobre o campo
do ISP e da sociedade civil, que conta com a participação das seguintes entidades e organizações: Associação Brasileira de Captadores de Recursos
(ABCR); Comunitas; Fundação Getulio Vargas (FGV); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Instituto de Cidadania Empresarial (ICE);
Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS); Ipea; Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD); Rede de Filantropia
para a Justiça Social; e Wings.
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texto, escrito por Clician Oliveira, Denise Freire e Francisco Marta, é dedicado a apresentar as diferenças
metodológicas existentes entre as edições do estudo As fundações privadas e associações sem fins lucrativos
no Brasil (FASFIL), do IBGE,8 de 2002, 2005 e 2010, indicando os parâmetros adotados na construção
de uma das principais referências sobre as OSCs no país. Em seguida, Erika Saez e Graziela Santiago
expõem os achados do último Censo GIFE 2016 sobre a crescente diversidade que tem caracterizado o
ISP no período recente.
Além da disponibilização de novos dados sobre o setor, os últimos anos foram pautados pelos
esforços de criação e fortalecimento de mecanismos de transparência sobre o perfil e a atuação das OSCs
em atividade no país. O desenvolvimento da plataforma Mapa das OSCs, pelo Ipea, constitui parte dessas
iniciativas, como demonstrado pelo artigo de Tiago Nascimento, Eric Ferreira, Kleyton Cotta e Vagner
Praia. Os autores descrevem os elementos que permitiram a criação e o aperfeiçoamento do Mapa como
ferramenta de consolidação de informações provenientes de bases de dados públicas e privadas sobre o
setor, assim como os principais mecanismos e funcionalidades de publicização e compartilhamento de
informações adotados pela plataforma. Encerrando a seção, o texto de Camila Escudero discute em que
medida as OSCs têm se apropriado de ferramentas e recursos de comunicação para definir suas estratégias
de divulgação por meio de mídias sociais e websites, potencializando a publicização de suas atividades.
A segunda seção, Trabalho nas OSCs: avanços e desafios, aborda diferentes dimensões que configuram
as relações formais de trabalho no interior das OSCs. O artigo de Graciela Hopstein e Martina Davidson
discute os desafios ainda enfrentados pelas mulheres, que, a despeito de representarem a maior parcela da
mão de obra empregada pelas OSCs, auferem rendimentos mais baixos e estão concentradas em atividades e
temas marcados pela prevalência de estereótipos de gênero como orientadores das competências e vocações
entendidas como femininas. Na sequência, Pedro Gomes, Felix Lopez, André Vieira e Ana Camila Pereira
abordam os aspectos demográficos, raciais e de escolaridade presentes no mercado de trabalho formal das
OSCs, a partir de informações sobre vínculos empregatícios contidas na Relação Anual de Informações
Sociais (RAIS) do então Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Complementando o panorama sobre o trabalho formal nas OSCs, Laís Lopes e Stella Reicher
analisam dados ainda pouco explorados sobre a participação das pessoas com deficiência (PCDs) no
mercado de trabalho formal das OSCs, evidenciando como a contratação do público PCD ainda
é um desafio no âmbito dessas organizações, dadas as dificuldades de cumprimento da reserva
percentual de vagas definida pela Lei de Cotas (Lei no 8.213, de 24 de julho de 1991), inclusive por
organizações de maior porte.
A última seção, Sustentabilidade das OSCs: estratégias e limites, abrange um rol amplo de questões
que têm marcado o debate sobre os principais desafios enfrentados pelo setor, considerando a redução de
investimentos públicos e privados direcionados para as OSCs no período recente. O texto de Felix Lopez e
Pedro Gomes descreve as principais dificuldades para estimar adequadamente as transferências de recursos
públicos executados pelas OSCs, destacando, de um lado, o trabalho pioneiro do Mapa das OSCs na
consolidação das informações orçamentárias na esfera federal e, de outro, a importância de incorporar dados
sobre as transferências estaduais e municipais para determinar o volume global de recursos públicos acessados
pelas OSCs. Em seguida, Andréa Wolffenbüttel assinala pontos de aproximação e distanciamento entre as
principais pesquisas sobre doações para OSCs a partir de elementos que caracterizam o comportamento
8. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/economicas/outras-estatisticas-economicas/9023-as-fundacoes-privadas-eassociacoes-sem-fins-lucrativos-no-brasil.html>.
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Apresentação
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de doadores e doadoras no país. O texto de autoria de Anna Peliano e Patricia Loyola traz reflexões sobre
o perfil dos investimentos sociais feitos pelas empresas privadas no país e em que sentido esses recursos
têm se articulado com as políticas públicas, baseando-se nos últimos dados divulgados pela pesquisa
Benchmarking do Investimento Social Corporativo (BISC).9 E, finalmente, Diogo de Sant’Ana e Beatriz
Coppola discutem como os chamados negócios de impacto têm assumido lugar de destaque como um
novo campo de atuação econômica das OSCs.
Os parágrafos anteriores evidenciam a multiplicidade de enfoques adotada nas análises sobre o
perfil e a atuação das OSCs sem, evidentemente, esgotar o tema. Dadas as limitações de tamanho e
cronograma da publicação, questões da maior relevância não foram contempladas nesta edição, a exemplo
das discussões sobre a atuação das OSCs nos canais de participação social, ativismo estatal, associativismo
e outras pesquisas e análises produzidas. Apesar dessas lacunas, é possível argumentar que os textos que
compuseram a publicação dialogam em dois aspectos centrais: são estudos orientados pelo uso dos dados
contidos nos principais diagnósticos e pesquisas disponíveis, além de centrarem o foco da análise nas
conexões entre a atuação das OSCs e questões que compõem a agenda atual dos desafios enfrentados.
Como será possível observar ao longo desta publicação, os desafios de fortalecimento das
OSCs são inúmeros. Perpassam questões ligadas a como garantir a sustentabilidade econômica
dessas organizações diante de cenários de redução dos investimentos públicos e privados, além de
abarcarem estratégias ligadas à criação de uma cultura de doação no país e à necessidade de construção
de ambiente jurídico favorável em relação a incentivos fiscais. Esses desafios vão além, entretanto,
e recaem sobre como construir estratégias de aumento da confiança, transparência e legitimidade
das OSCs diante de diversos setores da sociedade ou como avaliar as potencialidades das interações
entre Estado e OSCs na execução de políticas públicas. Vale também compreender como as OSCs
contribuem para o fortalecimento da democracia e qual papel deveria ser desempenhado por elas e
pelo ISP sobre preocupações que compõem a agenda pública do país.
A intenção desta edição especial do BAPI dialoga com esse rol de preocupações e visa fornecer
um panorama amplo de questões que permeiam o debate sobre a dinâmica de funcionamento das
OSCs para aqueles e aquelas interessados em estabelecer um primeiro contato com o tema, assim
como sensibilizar e tornar formuladores e gestores públicos mais atentos ao potencial e aos desafios que
compreendem as articulações existentes entre Estado e OSCs. Pretende-se, dessa forma, explicitar a
agenda de pesquisa em andamento em torno do tema para pesquisadores e estudiosos potencialmente
interessados em discutir as OSCs, em suas diversas dimensões, a partir da multiplicidade de dados
e estatísticas disponíveis sobre o setor no país.
Boa leitura!
9. Disponível em: <http://www.comunitas.org/portal/o-bisc/>.
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Apresentação
11
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Seção I
O que sabemos sobre as organizações da sociedade civil?
Estudos sobre o perfil das OSCs e mecanismos de
fortalecimento da transparência no Brasil
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Aspectos Metodológicos do Estudo As Fundações Privadas e Associações sem
Fins Lucrativos no Brasil (FASFIL)1
Clician do Couto Oliveira2
Denise Guichard Freire3
Francisco de Souza Marta4
1 INTRODUÇÃO
Os estudos FASFIL, publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),5 disponibilizaram
informações sobre as entidades sem fins lucrativos (ENSFIL) no Brasil em quatro edições para 2002,
2005, 2010 e 2016 (IBGE, 2004; 2008; 2012; 2019). Os dados compreendem o número de associações e
fundações sem fins lucrativos, sua distribuição geográfica, as áreas de atuação, o número de trabalhadores
empregados, sua escolaridade, entre outros.6 Este texto tem como objetivo descrever os aspectos metodológicos
comuns às quatro edições das FASFIL, indicando os principais elementos de delimitação do universo sob
estudo, e pontuar as principais reformulações implementadas ao longo do tempo, tendo como referência
o Handbook on Non-Profit Institutions in the System of National Accounts (manual sobre as instituições
sem fins lucrativos no sistema de contas nacionais, em tradução livre) (UN, 2003).
Além desta introdução, os aspectos metodológicos comuns a todas as edições das FASFIL estão
organizados ao longo do texto da seguinte forma: seção 2, referência metodológica; seção 3, unidade de
investigação e natureza jurídica; seção 4, âmbito da finalidade de atuação; seção 5, descrição das principais
reformulações metodológicas que ocorreram; e, fechando o artigo, seção 6, considerações finais.
2 REFERÊNCIA METODOLÓGICA
As pesquisas sobre as instituições sem fins lucrativos apresentam características multifacetadas. Tal complexidade
advém da heterogeneidade do desenvolvimento dessas instituições nos diferentes contextos dos países.
De um modo geral, é possível ressaltar três dimensões principais, em especial quando a questão de fundo
se refere ao impacto social das organizações do terceiro setor. Uma dimensão é a analítica, do ponto de vista
sociológico e econômico, apresentando uma pluralidade de formas conceituais. A segunda é a institucional,
com discussões sobre a diversidade dos arcabouços jurídicos dessas instituições e de suas relações nos
diferentes contextos históricos. Por último, a dimensão relacionada às metodologias de mensuração e às
1. Os autores agradecem os comentários e sugestões de Marcia Maria Melo Quintslr. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) está isento
de qualquer responsabilidade por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos neste artigo, que são de exclusiva responsabilidade dos autores.
2. Tecnologista em informações geográficas e estatísticas do IBGE na Coordenação de Cadastro e Classificações da Diretoria de Pesquisas
(COCAD/DPE)/IBGE. E-mail: <clician.oliveira@ibge.gov.br>.
3. Tecnologista em informações geográficas e estatísticas do IBGE na COCAD/DPE/IBGE. E-mail: <denise.freire@ibge.gov.br>.
4. Tecnologista em informações geográficas e estatísticas do IBGE na COCAD/DPE/IBGE. E-mail: <francisco.marta@ibge.gov.br>.
5. As três primeiras edições das FASFIL foram desenvolvidas em conjunto com o Ipea, em parceria com o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas
(GIFE) e a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong).
6. Outra importante publicação sobre a rede privada de atendimento socioassistencial no país é a pesquisa As Entidades de Assistência Social Privadas
sem Fins Lucrativos no Brasil, também publicada pelo IBGE. O universo é composto por entidades que prestam serviços de assistência social de caráter
privado, a saber: as que têm personalidade jurídica equiparada à de empresa privada ou congênere, sem fins lucrativos, prestando atendimento de
interesse público. Ressalta-se que o universo dessa pesquisa foi constituído considerando as entidades classificadas no grupo 0.50 – assistência social,
na classificação dos objetivos das instituições sem fins lucrativos ao serviço das famílias (COPNI ampliada) nas FASFIL.
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problemáticas relacionadas à elaboração de conceitos operacionais, e à definição de procedimentos de
captura e de processamento de informações harmonizados.
O debate em torno dos conceitos operacionais das organizações não governamentais (ONGs)7 voltadas
para assistência social e defesa de direitos é importante para a produção de estatísticas, cuja qualidade
depende da harmonização das metodologias, de forma a garantir a descrição quantitativa adequada e a
comparabilidade no tempo e no espaço. Segundo Motta (2010), a história de desenvolvimento desigual
dessas entidades na execução de atividades de interesse público e na forma de interação com os órgãos do
Estado resulta em um descompasso na tentativa de enquadramento das “entidades públicas não estatais”
como mobilizadoras de interesses sociais e entes de colaboração na prestação de parte dos serviços não
exclusivos de Estado.8
A produção de estatísticas harmonizadas sobre fundações e associações sem fins lucrativos resulta
de discussões dos temas de classificação de finalidade, âmbito de atividades e variáveis. No Brasil, com o
objetivo de construção de estatísticas comparáveis internacionalmente e de séries históricas, as FASFIL
adotam como referência a metodologia proposta no handbook (UN, 2003), elaborado pela Divisão
de Estatísticas das Nações Unidas (United Nations Statistics Division – UNSD), em conjunto com a
Universidade Johns Hopkins. Adotam também a Classification of the Purpose of Non-Profit Institutions
Serving Households (COPNI) (UN, 1999).
As recomendações contidas nesses guias respondem ao interesse crescente da sociedade9 na
compreensão das organizações que, não sendo entidades empresariais, administração pública ou
tampouco parte do setor institucional famílias,10 possuem foco nas questões assistenciais, defesa
de direitos e do meio ambiente. São “entidades públicas não estatais, sem fins lucrativos, caracterizadas
juridicamente como associações ou fundações [privadas], que atuam como instituições do terceiro setor,
com foco na melhoria das condições de vida do ser humano, no incremento da cultura e da ciência ou na
preservação do meio ambiente” (Motta, 2010, p. 230). Essas entidades compreendem escolas, hospitais,
instituições de assistência social, clubes de recreação e esportes, associações culturais, institutos de pesquisa,
organizações religiosas, assistência jurídica na defesa de direitos das mulheres, dos povos tradicionais, do
meio ambiente, entre outros.
7. ONGs compreendem uma das possíveis denominações das ENSFIL que constam na literatura. Encontram-se ainda conceitos tais como terceiro setor,
organizações da sociedade civil e organizações sociais.
8. Esse descompasso está relacionado com questões institucionais, tais como a evolução do conceito legal de pessoas jurídicas de direito
privado sem fins lucrativos, a variedade de formas de contratação e de financiamento dessas organizações e os diferentes graus e formas
de proximidade entres esses atores (Ciconello, 2004; Motta, 2010; Segatto, 2013). No âmbito da administração pública, esse desarranjo
relaciona-se com o grau de clareza na qualificação de pessoa jurídica de interesse social e utilidade pública. Depende, ainda, do nível da
transparência no cumprimento, pelas ENSFIL: i) de sua finalidade orientada pelo interesse público; ii) da eficiência e economicidade na aplicação
dos recursos; e iii) da efetividade dos serviços prestados.
9. Em particular de cientistas sociais e formuladores de políticas públicas.
10. Conforme conceito no System of National Accounts: 2008 (UN, 2009, p. 61-64) –, doravante SNA 2008. De acordo com o IBGE (2016, p. 97-98),
“para o Sistema de Contas Nacionais, uma família é um grupo de pessoas que vive em um mesmo domicílio e compartilha despesas com alimentos
e/ou habitação. Famílias podem ser constituídas por uma ou mais pessoas. Pessoas vivendo em conjunto, em lugares como conventos, presídios ou
quartéis, também fazem parte do grupo famílias. A principal fonte de rendimento das famílias é o recebimento de salários e outras remunerações
por trabalharem em empresas ou no governo, mas as famílias também têm rendimento de produção própria. Autônomos, empresas não constituídas
(sem registro no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica – CNPJ) e agricultores (agricultura familiar) são responsáveis por parte da produção própria das
famílias. Além de gerarem renda diretamente e receberem por sua participação na produção de empresas e governo, as famílias recebem (e fazem)
outras transferências de recursos. Contabilizando a renda recebida e todas essas transferências, é possível calcular a renda disponível das famílias, isto
é: a renda que elas têm para consumir e poupar. As transferências feitas e recebidas pelas famílias incluem juros, dividendos, impostos sobre renda e
patrimônio, contribuições e benefícios sociais, além de prêmios e indenizações de seguros”.
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Aspectos Metodológicos do Estudo As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil (FASFIL)
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Segundo Motta (2010), esse tratamento conceitual e metodológico específico para as ENSFIL se
justifica pelas características distintas que essas organizações abarcam, legitimando agrupá-las como um
setor para atender propostas analíticas diversas. Portanto, o escopo do handbook estabelece diretrizes
para a caracterização dessas instituições, para permitir dimensionar seu peso na estrutura econômica
em geral e suas interações com os demais setores da economia. Nele são propostas as metodologias de
classificação (UN, 2003) e de mensuração das instituições sem fins de lucro, que oferecem suporte para
o desenvolvimento de uma conta-satélite11 para o setor, de acordo com o Sistema de Contas Nacionais,12
garantindo harmonização de conceitos, classificações e variáveis comparáveis internacionalmente.
Em outros países, as discussões sobre essas instituições têm ocorrido dentro do projeto de
desenvolvimento da metodologia das contas-satélites do terceiro setor ou da economia social, ainda que
organizem suas estatísticas primárias e realizem pesquisas de maneiras diferentes. As bases de dados utilizadas
são variadas e podem ser registros administrativos ou pesquisas amostrais ou censitárias, domiciliares ou
por empresa. Isso depende da constituição histórica e jurídica dessas entidades em determinados países
e da disponibilidade de registros e recursos, conforme mencionado. Ilustrativamente, pode-se citar o
caso de Portugal que, na estimativa da conta-satélite da economia social, faz uso extensivo e intensivo
de registros administrativos, e mantém um conjunto de “inquéritos” para diferentes formas jurídicas
dessas entidades (ONGs de ambiente; associações de socorros mútuos; associações, uniões, federações e
confederações patronais; entidades detentoras de corpos de bombeiros; potencial científico e tecnológico
nacional) (INE Portugal, 2016). Os Estados Unidos, em particular, não estimam as contas-satélites, porém
têm produzido uma série de tabelas contendo informações harmonizadas de acordo com a metodologia
proposta no handbook.13
3 UNIDADE DE INVESTIGAÇÃO E NATUREZA JURÍDICA
Os estudos das FASFIL utilizam o Cadastro Central de Empresas (Cempre)/IBGE como base de dados
que contém as informações cadastrais e econômicas de empresas, órgãos da administração pública,
ENSFIL e outras organizações, bem como inclui as respectivas unidades locais (ULs), oriundas das
pesquisas econômicas por empresa do IBGE e de registros administrativos do então Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE), como a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e o Cadastro Geral
de Empregados e Desempregados (CAGED). Para as FASFIL, são utilizadas somente as informações
do Cempre provenientes de registros administrativos, tendo como unidade de investigação a UL que se
refere às localidades de atuação das organizações.
Para a realização dos estudos, foi imprescindível a existência do código de natureza jurídica14 no
Cempre, que permitiu a delimitação do universo das ENSFIL, o qual compreende as organizações cujo
código de natureza jurídica é iniciado por 3.15
11. Ver também SNA 2008 (UN, 2009, p. 523).
12. Ver também SNA 2008 (UN, 2009, p. 455-460).
13. Para as experiências europeias, ver Salamon e Sokolowski (2018). Para estudos comparativos de diferentes países, consultar Salamon et al. (2012)
e o Comparative Nonprofit Sector Project (CNP), disponível em: <http://ccss.jhu.edu/research-projects/comparative-nonprofit-sector-project/>.
14. A natureza jurídica identifica a constituição jurídico-institucional das entidades públicas e privadas. No caso brasileiro, esses critérios correspondem
às figuras jurídicas, conforme o art. 44 do novo Código Civil (Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002): associações (art. 53), fundações (cap. III) e
organizações religiosas (Lei no 10.825, de 22 de dezembro de 2003). As organizações sociais seguem os termos da Lei Federal no 9.637, de 15 de
maio de 1998, ou de lei estadual, ou distrital ou municipal.
15. Mais informações sobre a tabela de natureza jurídica disponíveis em: <https://concla.ibge.gov.br/classificacoes/por-tema/organizacao-juridica.html>.
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O âmbito das FASFIL foi delimitado a partir do conjunto das ENSFIL, considerando fundações e
associações que se enquadrem, simultaneamente, nos cinco critérios descritos a seguir (UN, 2003, p. 18).
1) Privadas, não integrantes, portanto, do aparelho de Estado.
2) Sem fins lucrativos, isto é, organizações que não distribuem eventuais excedentes entre os proprietários
ou diretores e que não têm como razão primeira de existência a geração de lucros – podendo até gerá-los,
desde que aplicados nas atividades fins.
3) Institucionalizadas, ou seja, legalmente constituídas.
4) Autoadministradas ou capazes de gerenciar suas próprias atividades.
5) Voluntárias, na medida em que podem ser constituídas livremente por qualquer grupo de pessoas, isto é,
a atividade de associação ou de fundação da entidade é livremente decidida pelos sócios ou fundadores.
4 ÂMBITO DA FINALIDADE DE ATUAÇÃO E VARIÁVEIS ANALISADAS
Para todo o universo das ENSFIL é utilizada a classificação das ULs das organizações segundo as respectivas
finalidades da atuação, isto é, os objetivos a que servem. Tal categorização tem por base a COPNI ampliada
(IBGE, 2019, p. 85-93).16 Essa classificação usa como referência a COPNI (UN, 1999) publicada pela
UNSD, o que possibilita a comparabilidade entre os países, desde que se mantenham as correspondências
com os grupos definidos pela classificação.17 Ajustes que compatibilizem a classificação com as especificidades
de cada país e de estudos relacionados são permitidos.
Assim, os procedimentos utilizados para enquadramento das ULs das ENSFIL para recorte desse
universo compreendem:
•
filtro por natureza jurídica de entidade sem fins lucrativos com código inicial 3; e
•
enquadramento dessas entidades nos códigos da COPNI ampliada por palavra-chave, razão social,
nome fantasia, interpretação do código da CNAE18 e da natureza jurídica da UL. Consultas telefônicas
foram realizadas sempre que necessárias.
Sobre o universo das ENSFIL, considerados os cinco critérios detalhados anteriormente, é realizada
a última etapa metodológica para a delimitação do âmbito das FASFIL, procedendo-se à exclusão dos
seguintes grupos e subgrupos da COPNI ampliada:
•
caixas escolares e similares (código 04.5); partidos políticos (07.1); sindicatos, federações e confederações
(07.2); condomínios (10.1); cartórios (10.2); “Sistema S” (10.3); entidades de conciliação e arbitragem
(10.4); comissões de conciliação prévia (10.5);
•
conselhos, fundos e consórcios municipais (10.6) que não atendem ao critério de “privadas”.
Essas organizações são pessoas jurídicas de direito público; e
16. A COPNI ampliada adotada no estudo das FASFIL é mais ampla do que a original por incluir, além das instituições privadas sem fins lucrativos
servindo as famílias (para uso do Sistema de Contas Nacionais), o conjunto das ENSFIL, conforme definição da tabela de natureza jurídica em vigor.
17. Atividade econômica versus finalidade de atuação: empresas e outras organizações e suas respectivas ULs que compõem o Cempre estão classificadas
segundo a principal atividade econômica, de acordo com a Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE), que é definida segundo o conceito
de produção econômica do Sistema de Contas Nacionais e serve para a classificação de todos os tipos de unidades engajadas na produção de bens e
serviços, independentemente de estruturas legais, institucionais ou organizacionais. A CNAE não tem por prioridade a identificação de bens, serviços
ou de finalidades específicas desenvolvidas pelas unidades classificadas por esse instrumento. Por essa razão, para a identificação e organização
das informações nas FASFIL, usa-se a COPNI ampliada, cujo propósito específico é indicar a finalidade de atuação das instituições sem fins de lucro.
18. O handbook propõe relacionar as diferentes classificações com a COPNI. Sobre uma proposta de correspondência entre a International Standard
Industrial Classification of all Economic Activities (ISIC) e a COPNI, ver UN (2003, p. 36-38). Sobre a CNAE, ver nota de rodapé 24.
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Aspectos Metodológicos do Estudo As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil (FASFIL)
19
•
cemitérios e funerárias (10.7), que podem assumir a forma de uma pessoa jurídica de direito público
ou de direito privado, com ou sem fins lucrativos, com base em regulamentação municipal. Assim, não
atendem aos critérios de organização privada, sem fins lucrativos e voluntária.
As principais variáveis disponibilizadas pela publicação são: pessoal ocupado assalariado; salários e
outras remunerações; e número de ULs. Essas variáveis são desagregadas segundo a COPNI, o sexo e o nível
de escolaridade. O número de ULs também é apresentado segundo faixas de pessoal ocupado assalariado,
como indicador de porte, e segundo faixas de ano de fundação das entidades. As variáveis derivadas são
pessoal assalariado médio19 e salário médio mensal, em salários mínimos e em reais. No âmbito geográfico,
há tabulações correspondentes a Grandes Regiões, Unidades da Federação (UFs) e municípios.
5 REFORMULAÇÕES METODOLÓGICAS
Conforme mencionado, esta seção trata das reformulações metodológicas mais significativas em diferentes
publicações das FASFIL. Tais atualizações dos métodos ocorreram em decorrência de:
•
alteração do método de determinação das unidades ativas no Cempre;
•
adoção da versão 2.0 da CNAE; e
•
refinamentos nas regras que definem os grupos de finalidade da COPNI, particularmente as relacionadas
à interpretação do código CNAE, da semântica da razão social e do nome fantasia, e do código de
natureza jurídica.
Os dois primeiros itens tratam de atualizações metodológicas ocorridas no estudo sobre as FASFIL
de 2010 em relação à publicação de 2005. O último item compreende um procedimento de melhoria
contínua que tem ocorrido a cada nova edição da publicação.20
5.1 ULS ativas no Cempre
Nos estudos de 2002 e 2005, consideravam-se como unidades ativas todas as entidades jurídicas que
compunham o Cempre, respondentes da RAIS, inclusive a RAIS negativa, com exceção das organizações
com situações cadastrais classificadas como canceladas ou extintas. A partir de 2006, o Cempre incorporou
novas regras para a identificação de ULs ativas. Dessa forma, a nova definição de condição de atividade
das entidades passou a considerar, além das situações cadastrais das fontes de atualização no ano de
referência – como o preenchimento da RAIS –,21 também o indicador de condição de atividade da RAIS
e o número de pessoas assalariadas das entidades. As ULs passaram, então, a ser consideradas ativas,
conforme os critérios a seguir:
19. Número médio de pessoas ocupadas, calculado a partir de informações provenientes da RAIS Empregado, que contém informações das datas
de admissão e desligamento por vínculo empregatício. Quando a pessoa assalariada trabalhou durante todos os dias do ano na unidade, atribui-se
peso 1; caso contrário, determina-se um peso proporcional ao número de dias trabalhados no ano. Para cada dia trabalhado, cada pessoa recebeu
um peso equivalente a 1/12, o que representa um peso de 1/365 ao mês. Assim, se a pessoa trabalhou por seis meses, por exemplo, seu peso foi de 0,5.
Para calcular o pessoal ocupado assalariado médio de uma UL ao longo do ano, considera-se, portanto, o somatório dos pesos relacionados a todos
os vínculos empregatícios existentes naquela unidade durante o ano (IBGE, 2019).
20. A publicação sobre as FASFIL de 2005 disponibilizou estatísticas para 1996, 2002 e 2005; a de 2010 publicou informações para 2006, 2008 e
2010; e, por último, a de 2016 traz informações para 2010, 2013 e 2016.
21. Para conhecer o critério adotado nas publicações sobre as FASFIL de 2002 e 2005 (IBGE, 2004; 2008) na seleção de unidades ativas e o impacto
da adoção do novo critério denominado “condição de atividade”, consultar o tópico Notas técnicas da publicação Estatísticas do Cadastro Central
de Empresas: 2007 (IBGE, 2009).
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•
provenientes da RAIS que tinham cinco ou mais pessoas ocupadas assalariadas em 31 de dezembro do
ano de referência, independentemente da situação cadastral da empresa no Cempre ou de qualquer
outra informação.
•
com zero a quatro pessoas ocupadas assalariadas, que se declararam em atividade na RAIS no ano de
referência e sem informação nas pesquisas econômicas anuais do IBGE; e
•
com informação econômica nas pesquisas econômicas anuais do IBGE, independentemente da situação
cadastral e da condição de atividade informada na RAIS.
Essa alteração nos critérios de seleção provocou uma redução de 24,8% no total de entidades ativas
do Cempre com ano de referência 2006. A redução no total de unidades ativas se deve à exclusão das
unidades que preencheram a RAIS com indicativo de inatividade, pois se declararam como não exercendo
atividade econômica no ano de referência. Ressalta-se que essa redução impacta também o universo das
FASFIL. Tal concepção de unidade ativa foi incorporada à publicação de 2010, que divulgou informações
para 2006, 2008 e 2010.
5.2 Classificação de atividades econômicas
As entidades e suas respectivas ULs que compõem o Cempre estão classificadas segundo a principal
atividade econômica desenvolvida, de acordo com a CNAE, oficialmente utilizada pelo Sistema Estatístico
Nacional brasileiro. Quando ocorreu a elaboração das edições das FASFIL de 2002 e 2005, o Cempre
era alimentado com informações classificadas de acordo com a CNAE 1.0.
Em 2006, houve uma atualização da classificação de atividades econômicas, passando a vigorar a
CNAE 2.0.22 A adoção dessa versão assegurou comparabilidade internacional, assim como dotou o país de
uma classificação mais detalhada e consistente com as mudanças no sistema produtivo.23 Essa atualização
exigiu a redefinição das regras de atribuição da COPNI, uma vez que é utilizado um algoritmo que
engloba, entre outros atributos, o código CNAE das ENSFIL.24
O Cempre recebeu atualização da RAIS 2006 com a CNAE 2.0 e manteve a classificação anterior,
CNAE 1.0, para aquelas organizações previamente existentes. Para as novas organizações, foi aplicado um
tradutor da CNAE 2.0 para a 1.0. Assim, foi possível gerar, para o ano de referência 2006, dois arquivos
com as distintas metodologias do estudo das FASFIL: um com a antiga metodologia e outro com a nova,
considerando também em cada um os diferentes critérios de unidades ativas. Foi possível, portanto,
comparar as duas metodologias desse estudo no ano de referência 2006. A comparação foi divulgada com
a edição das FASFIL de 2010, que utilizou o novo critério de atividade e a CNAE 2.0.
22. A nova versão da CNAE 2.0 é fruto de um amplo processo de revisão baseado nas mudanças introduzidas na versão 4 da ISIC, tendo sua aprovação
divulgada no Diário Oficial da União, de acordo com a Resolução da Comissão Nacional de Classificação (CONCLA) no 1, de 5 de setembro de 2006.
23. As regras da CNAE, nas versões 1.0 e 2.0, bem como sua interpretação e estrutura de códigos, estão disponíveis em: <https://concla.ibge.gov.br/>.
24. Em alguns casos, o código da CNAE permite a atribuição direta do código COPNI às ENSFIL. Por exemplo, a classe CNAE 85.20-1, que
compreende as atividades de ensino médio, pode ser diretamente relacionada ao subgrupo COPNI 04.3 denominado “ensino médio”. Os códigos
CNAE 87.11-5 (atividades de assistência a idosos, deficientes físicos, imunodeprimidos e convalescentes prestadas em residências coletivas e particulares),
87.20-4 (atividades de assistência psicossocial e à saúde a portadores de distúrbios psíquicos, deficiência mental e dependência química) e 87.30-1
(atividades de assistência social prestadas em residências coletivas e particulares) podem ser relacionados ao subgrupo COPNI 05.0, assistência social.
Outro exemplo é o código 69.12-5, serviços de cartório, que pode ser associado ao código COPNI 10.2, cartórios; ou ainda a CNAE 94.92-8 ao COPNI
07.1, partidos políticos. Sobre diferenças conceituais entre a COPNI e a CNAE, ver nota de rodapé 17.
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Aspectos Metodológicos do Estudo As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil (FASFIL)
21
5.3 Regras que definem os grupos de finalidade da COPNI
O algoritmo de classificação das ENSFIL nos grupos e subgrupos propostos na COPNI ampliada
compreendeu os seguintes passos:
•
alocação das entidades a partir de palavras-chave, razão social, nome fantasia e/ou consultas telefônicas,
principalmente por meio do sistema Computer Assisted Telephone Interview (CATI);
•
alocação do saldo das entidades que não puderam ser classificadas por esse procedimento pelo código
da CNAE 2.0 reportado pela RAIS; e
•
leitura dos subgrupos, sendo corrigidos erros de classificação por meio da melhor adequação dos filtros
ou palavras-chave aplicados na primeira etapa.
No trabalho de revisão do algoritmo de atribuição de código da COPNI, mencionado anteriormente,
apresentado no estudo das FASFIL de 2010, aproveitou-se, também, para refinar e aprimorar ainda mais
as regras de semântica nos nomes das entidades e suas ULs. Avançou-se, portanto, para além da melhoria
correspondente ao detalhamento da classificação CNAE.25
A melhoria contínua e os refinamentos dos critérios que definem os grupos de finalidade da COPNI
buscam sempre incorporar os maiores detalhamentos e alterações das variáveis disponíveis, como natureza
jurídica e a semântica da razão social e do nome fantasia.
Para publicação da edição das FASFIL de 2016 (IBGE, 2019), realizou-se novo ciclo de melhorias
das regras de atribuição da COPNI. Introduziu-se maior relevância à CNAE, para as ULs que estejam
classificadas em atividades econômicas diretamente compatíveis com o código da COPNI, bem como
à natureza jurídica vis-à-vis e à semântica da razão social e do nome fantasia. Ressalta-se ainda que a
atualização das rotinas da COPNI incorporou as redefinições nas tabelas de natureza jurídica em 2014
e 2016. Essas mudanças compreenderam criação, extinção e alteração de denominações, gerando nova
redação para as notas explicativas das naturezas jurídicas.26
Destacam-se ainda os seguintes aspectos dessa edição de 2016:
•
a ampliação do campo razão social, de 55 para 100 caracteres no Cempre, possibilitando refinar a busca
por palavras-chave;
•
a atualização do campo razão social, que passou a tomar por base a Declaração de Informações
Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica da Secretaria da Receita Federal (DIPJ), ano-base 2014, no Cempre; e
•
as críticas sobre a CNAE e a natureza jurídica mais abrangente. Cerca de 120 mil ULs de ENSFIL foram
tratadas nos três anos – 2010, 2013 e 2016 – disponibilizados na publicação das FASFIL (IBGE, 2019).
No que diz respeito a essa crítica mais ampliada das ENSFIL, destacam-se principalmente:
i) o mapeamento das entidades pertencentes ao Sistema S; ii) os cruzamentos de naturezas jurídicas
específicas com a CNAE, nos casos de cartórios, condomínios, igrejas, partidos políticos, sindicatos, entre
outros; e iii) a realização de críticas de consistências nas estatísticas agregadas por grupos e subgrupos da
COPNI (educação, saúde, assistência social, caixas escolares, cemitérios, associações patronais, associações
profissionais, cultura e recreação, meio ambiente, mediação e arbitragem, comissão de conciliação,
entre outras).
25. O estudo de impacto dessa revisão está disponível na nota técnica do estudo das FASFIL de 2010 (IBGE, 2012).
26. Essas alterações constam na Resolução CONCLA no 2, de 23 de dezembro de 2013, e na Resolução CONCLA no 1, de 28 de abril de 2016. Disponível
em: <https://concla.ibge.gov.br/concla/resolucoes-atas.html>.
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Boletim de Análise Político-Institucional | n. 20 | Junho 2019
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Além desses procedimentos, quanto à compatibilização dos dados das bases FASFIL de 2010 e
2013, para torná-las comparáveis com a de 2016, pautou-se nestes dois principais critérios: i) a fixação dos
códigos da COPNI de 2016 para as ULs comuns aos três anos; e ii) a adoção dos mesmos procedimentos
utilizados para classificar as entidades em 2016 para as demais ULs. O impacto dessa revisão está disponível
na nota técnica do estudo das FASFIL de 2016 (IBGE, 2019).
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A ideia de constituir instituições sem fins de lucro como um setor econômico distinto deve-se ao
reconhecimento crescente da importância dessas entidades em relação à oferta de serviços de interesse social
e público. Essas organizações são diferentes do setor empresarial porque não distribuem eventuais excedentes
entre os proprietários ou diretores, e são autoadministradas. Ao mesmo tempo, são institucionalmente
separadas do Estado, caracterizadas juridicamente como associações ou fundações, de caráter privado,
que atuam com foco em questões assistenciais, de defesa de direitos e meio ambiente. Como resultado, as
instituições sem fins de lucro oferecem especial contribuição para a solução de problemas públicos, dando
vida à experiência democrática e efetivamente melhorando a vida das pessoas. Porém, há enorme desafio
na quantificação desse impacto na sociedade por conta da heterogeneidade do desenvolvimento dessas
instituições nos diversos contextos sociais, culturais e econômicos nas dimensões temporais e geográficas.
Desde a primeira edição, o estudo sobre as FASFIL constitui referência de dados e análises para o
conhecimento da sociedade civil organizada no Brasil. O estudo tem como referência metodológica
o Handbook on Non-Profit Institutions in the System of National Accounts (UN, 2003), amplamente
utilizado por diversos países – e ainda que organizem e realizem suas estatísticas e pesquisas de maneiras
diferentes, o essencial é que os conceitos operacionais elaborados tenham como referência os critérios e
as variáveis definidos no handbook e utilizem a COPNI, em particular.
No caso do Brasil, as FASFIL publicam um agrupamento das organizações por áreas de atuação
e informam sobre seus empregados, revelando como estão distribuídas no território brasileiro e qual
sua regularidade. Esse conjunto de informações contribui para entender a dinâmica de uma parcela da
organização da sociedade civil na história recente que teve, na Constituição Federal de 1988, um marco
importante no que se refere ao reconhecimento da organização e da participação social como direitos e
valores a serem garantidos e fomentados.
As diferentes publicações das FASFIL mantêm em comum a referência metodológica e conceitual
do handbook e da COPNI no estabelecimento dos critérios para identificação das instituições sem fins
de lucro e definição de âmbito. A base de dados do Cempre e a unidade de observação também são as
mesmas. As principais adequações estiveram relacionadas à alteração de unidade ativa, à implementação da
CNAE 2.0 e à melhoria dos procedimentos de atribuição de código da COPNI, devidamente detalhados
nas notas metodológicas das publicações e disponíveis no site do IBGE.
REFERÊNCIAS
CICONELLO, A. O conceito legal de público no chamado “terceiro setor”. In: SZAZI, E. Terceiro
setor: temas polêmicos. São Paulo: Peirópolis, 2004. v. 1. Disponível em: <http://www.abong.org.br/
novosite/download/conceito_legal.pdf>.
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Aspectos Metodológicos do Estudo As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil (FASFIL)
23
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. As fundações privadas
e associações sem fins lucrativos no Brasil: 2002. 2. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2004. (Estudos e
Pesquisas: Informação Econômica, n. 4). Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/
livros/liv5428.pdf>.
______. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil: 2005. Rio de Janeiro:
IBGE, 2008. (Estudos e Pesquisas: Informação Econômica, n. 8). Disponível em: <https://biblioteca.
ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv39549.pdf>.
______. Estatísticas do cadastro central de empresas: 2007. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. 182 p.
Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv36029.pdf>.
______. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil: 2010. Rio de Janeiro:
IBGE, 2012. (Estudos e Pesquisas: Informação Econômica, n. 20). Disponível em: <https://biblioteca.
ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv39549.pdf>.
______. Sistema de contas nacionais. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. 236 p. (Relatórios metodológicos).
Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv98142.pdf>.
______. As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil: 2016. Rio de Janeiro:
IBGE, 2019. (Estudos e Pesquisas: Informação Econômica, n. 32). Disponível em: <https://biblioteca.
ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101647.pdf>.
INE PORTUGAL – INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA DE PORTUGAL. Conta satélite
da economia social 2013. Destaque: Informação à Comunicação Social, 20 dez. 2016. Disponível
em: <https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_
boui=278817467&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt>.
MOTTA, A. M. A utilização de recursos públicos pelas organizações não governamentais. Revista de
Informação Legislativa, Brasília, v. 47, n. 186, p. 205-244, abr./jun. 2010. Disponível em: <http://
www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/198683/000888829.pdf?sequence=1>.
SALAMON, L. M. et al. The state of global civil society and volunteering: latest findings from the
implementation of the UN Nonprofit Handbook. Baltimore: Johns Hopkins Center for Civil Society
Studies, 2012. 18 p. (Working Paper, n. 49).
SALAMON, L. M.; SOKOLOWSKI, W. The size and composition of the European third sector.
In: ENJOLRAS, B. et al. The third sector as a renewable resource for Europe: concepts, impacts,
challenges and opportunities. Switzerland: Palgrave Macmillan, 2018. p. 49-94.
SEGATTO, C. I. O espaço das organizações da sociedade civil de defesa de direitos na relação
governo-sociedade no Brasil. In: MENDONÇA, P. M. E.; ALVES, M. A.; NOGUEIRA, F. do A.
(Org.). Arquitetura institucional de apoio às organizações da sociedade civil no Brasil. São
Paulo: Editora FGV, 2013. p. 144-165. Disponível em: <https://ceapg.fgv.br/sites/ceapg.fgv.br/
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UN – UNITED NATIONS. United Nations Statistics Division. Classification of the purposes
of non-profit institutions serving households (COPNI). New York: UN, 1999. Disponível em:
<https://unstats.un.org/unsd/iiss/Classification-of-the-Purposes-of-Non-Profit-Institutions-ServingHouseholds-COPNI.ashx>.
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Boletim de Análise Político-Institucional | n. 20 | Junho 2019
24
______. United Nations Statistics Division. Handbook on non-profit institutions in the system of
national accounts. New York: UN, 2003. 327 p. Disponível em: <https://unstats.un.org/unsd/publication/
seriesf/seriesf_91e.pdf>.
______. System of national accounts: 2008. New York: UN, 2009. 662 p. Disponível em: <https://
unstats.un.org/unsd/nationalaccount/docs/SNA2008.pdf>.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. As entidades de assistência
social privadas sem fins lucrativos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. Disponível em: <https://
biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv37077.pdf>. Acesso em: jan. 2019.
______. As entidades de assistência social privadas sem fins lucrativos no Brasil: primeiros resultados.
Rio de Janeiro: IBGE, 2014. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv89805.pdf>.
______. As entidades de assistência social privadas sem fins lucrativos no Brasil: unidades de prestação
de serviços socioassistenciais. Rio de Janeiro: IBGE, 2015. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.
br/visualizacao/livros/liv94686.pdf>.
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Investimento Social Privado: um campo cada vez mais diverso
Erika Sanchez Saez1
Graziela Santiago Belo da Silva2
1 INTRODUÇÃO
Aprofundar o conhecimento sobre o investimento social privado (ISP) ganha relevância tanto diante do
importante papel desse setor na promoção das agendas públicas do país quanto por sua relação com o
campo das organizações da sociedade civil (OSCs).
Envolvendo, segundo definição do GIFE,3 o “repasse voluntário de recursos privados de forma
planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais, culturais e científicos de interesse
público”, o ISP abrange “ações sociais desenvolvidas por empresas, fundações e institutos de origem
empresarial ou instituídos por famílias, comunidades ou indivíduos”.4 Os investidores sociais contribuem
para o impulsionamento de transformações sociais no país por meio do desenvolvimento de projetos
próprios e pelo apoio, institucional ou via projetos, a OSCs, constituindo-se, assim, em importantes atores
na promoção e na sustentabilidade dessas organizações.
Estudos sobre o campo do ISP têm sido desenvolvidos desde a década de 1990 por organizações
promotoras do setor, a exemplo do censo do GIFE5 e do Benchmarking do Investimento Social
Corporativo (BISC), da Comunitas.6 Ainda assim, trata-se de um campo com grande potencial a ser
explorado e até o momento não amplamente difundido.
É, então, nesse contexto que este artigo busca descrever as principais características e traçar um
perfil do ISP brasileiro explorando aspectos relacionados à diversidade. Leituras sobre o ISP podem
ser produzidas a partir de diversas perspectivas, mas, certamente, a diversidade do campo e a análise
de como o ISP se relaciona com esse tema de forma ampla se constituem num olhar fundamental
para melhor compreender esse setor. Isso tanto pela importância de estimular e promover um
campo diverso quanto por considerar o papel que a valorização da diversidade possui no trabalho
desenvolvido pelos investidores sociais. Para que se alcance a transformação social que o setor do
ISP deseja promover, o foco nessa questão se faz necessário.
1. Gerente de programas no Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE).
2. Coordenadora de conhecimento no GIFE.
3. Organização sem fins lucrativos que reúne associados de origem empresarial, familiar ou independente que investem em projetos de interesse
público. Foi criado em 1989 como um grupo de troca e colaboração e institucionalizado em 1995. É, hoje, referência no campo da filantropia e do ISP
no Brasil. Disponível em: <https://gife.org.br/quem-somos-gife/>.
4. Disponível em: <https://gife.org.br/investimento-social-privado/>.
5. O censo do GIFE é uma pesquisa autodeclatória e voluntária, respondida pelos associados do grupo por meio de um questionário online a cada dois
anos. Abrange, assim, os diversos perfis de investidores sociais. Trata-se de uma pesquisa ao mesmo tempo quantitativa e reflexiva, que aborda desde a
estrutura dos investidores sociais até estratégias de atuação e o panorama dos projetos e programas. Disponível em: <https://gife.org.br/censo-gife/>.
6. A pesquisa BISC, realizada anualmente pela Comunitas, busca traçar parâmetros e comparações sobre o perfil do ISP corporativo no Brasil,
acompanhando a evolução dos compromissos sociais das empresas participantes. Ela busca dimensionar os recursos aplicados pelas empresas em
projetos e atividades de interesse social. Disponível em: <http://www.comunitas.org/portal/o-bisc/>.
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Boletim de Análise Político-Institucional | n. 20 | Junho 2019
26
Os dados do Censo GIFE 2016 (Saez, Santiago e Zachi, 2017)7 são o ponto de partida para
desenvolver essa abordagem e trazem, em si, um convite a analisar infinitos recortes por meio de
inúmeras perspectivas: i) pluralidade em termos de tamanho – metade dos respondentes investiu,
em 2016, até R$ 6 milhões e a outra metade mais de R$ 6 milhões, com ampla variação entre as
duas faixas, indo de R$ 1 a mais de R$ 500 milhões; ii) múltiplos formatos de atuação – caráter mais
executor de projetos próprios ou mais doador para projetos de terceiros; e iii) variedade temática – o
ISP atua em graus distintos, em uma ampla variedade de temas, adotando diferentes abordagens e
estratégias. Em cada uma delas, um universo se abre.
2 DIVERSIDADE DO ISP: PERFIS E TEMAS
Um primeiro recorte para analisar a diversidade do campo diz respeito ao perfil de investidor social, uma
classificação adotada pelo GIFE que está relacionada com a origem da organização, sua governança e suas
fontes de recursos, conforme se observa no gráfico 1.
GRÁFICO 1
Respondentes do censo do GIFE por perfil de investidor social
(Em %)
15
14
19
53
Instituto/fundação empresarial
Empresa
Instituto/fundação familiar
Instituto/fundação independente
ou comunitário
Fonte: GIFE, 2017.
Os institutos e fundações empresariais são aqueles criados e mantidos por uma empresa ou por seus
acionistas e geridos por pessoas ligadas à empresa que os sustenta. Os familiares, por sua vez, são criados e
mantidos por uma família ou por um indivíduo e geridos de forma independente das empresas da família,
ainda que possam estabelecer relações com elas. Os independentes são, geralmente, suportados por mais
de uma organização ou por indivíduos de origens variadas e se caracterizam, principalmente, por ter uma
gestão independente de seus mantenedores.
Para compreender melhor esses perfis, é importante, ainda, comparar algumas características básicas.
Em termos de volume de investimento, ao contrário da percepção mais generalizada, há investidores sociais
grandes e pequenos entre todos os tipos, e as medianas de investimento são similares, sendo que as empresas
têm as menores (R$ 4 milhões) e os institutos e as fundações empresariais, as maiores (R$ 7,1 milhões).
Os familiares possuem mediana de R$ 5,1 milhões e os independentes, de R$ 4,3 milhões.
7. Saez, E. S.; Santiago, G.; Zacchi, J. M. (Org.). Censo GIFE 2016. 1. ed. São Paulo: GIFE, 2017. 256 p. Disponível em: <https://bit.ly/2LYsq9u>. Acesso
em: 10 dez. 2018.
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Investimento Social Privado: um campo cada vez mais diverso
27
As empresas são, ainda, as menores em relação a outro dado relacionado a porte: o número de
colaboradores. Elas possuem uma mediana de três colaboradores remunerados para a execução do ISP.
Os institutos e as fundações independentes são os que têm maiores medianas (17), seguidos dos
familiares (15) e dos empresariais (10).8 Chama a atenção o fato de que os institutos e as fundações
empresariais têm a maior mediana de orçamento, mas a segunda menor de número de funcionários.
Aproximações e diferenças entre os perfis de investidores sociais perpassam os mais diversos aspectos
da atuação e da estrutura desses atores. Uma das semelhanças que mais se destacam no investimento social
é a quase unanimidade na priorização temática: 84% das organizações afirmam investir em educação.
Certamente, essa preponderância está relacionada ao fato de que a educação universal e de qualidade
ainda é um desafio que o Brasil precisa superar. No entanto, aí pode residir uma grande oportunidade
de inclusão da diversidade no ISP brasileiro, além da possibilidade de olhar para outros temas de alta
relevância na agenda pública que recebem menor atenção do setor.
Quando perguntados, por exemplo, sobre o olhar para as diferenças de gênero e de raça em seus
programas, apenas 2% dos investidores consideram as raciais9 e 4% deles levam em conta as de gênero
nos seus projetos.
A baixa presença de negros e mulheres nos conselhos das organizações de ISP também é uma
importante lacuna: 49% dos institutos e fundações10 têm 75% ou mais de conselheiros homens, e 21%
possuem somente conselheiros homens. Dos 873 conselheiros dos respondentes do Censo GIFE 2016,
apenas 24% são mulheres, dado que contrasta com o fato de 48% dos colaboradores serem mulheres.
Já em relação à cor/raça, os dados nos revelam uma representatividade ainda menor: 71% dos
institutos e fundações possuem apenas conselheiros brancos. Sobre a presença de não brancos, 16% das
organizações possuem conselheiros pardos, sendo que somente 3% têm conselheiros negros e 2%, indígenas.
Criar soluções e formatos inovadores para incluir a perspectiva das desigualdades de gênero e raça
nos programas, projetos e soluções sociais pode ser uma grande contribuição do ISP para o país.
Outra oportunidade é a ampliação do leque temático do ISP, uma vez que existem diversos escopos
nos quais sua atuação é bastante reduzida, como a defesa de direitos.11 Vale destacar que, apesar de a defesa
de direitos aparecer em nono lugar entre as doze áreas pesquisadas, ela é uma das que mais têm crescido
no censo do GIFE nos últimos anos – em 2009, 29% dos investidores sociais respondentes disseram atuar
nessa área, ante 43% em 2016. A representatividade de outras áreas pode ser visualizada no gráfico 2.
Por mais que essas características perpassem, de forma geral, todos os tipos de investidores sociais,
há algumas diferenças interessantes entres eles, que podem apontar caminhos possíveis para a ampliação da
diversidade. Com exceção dos institutos e fundações independentes, as duas principais áreas de atuação de
todos os perfis de investidores sociais são educação e formação de jovens. A partir daí, no entanto, distinções
importantes começam a surgir.
8. Para esses cálculos, não foram incluídos os colaboradores voluntários, somente os remunerados – próprios dos institutos e das fundações cedidos
pela empresa mantenedora.
9. Inclui negros, indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
10. Os dados do Censo GIFE 2016 sobre conselhos referem-se somente a institutos e fundações, e não foram verificados para empresas.
11. No âmbito do censo do GIFE, a área de defesa de direitos envolve a proteção e a promoção dos direitos humanos, caracterizando-se por ações
que se utilizam de estratégias de defesa desses direitos – não apenas contribuindo para a sua realização, mas empoderando pessoas e/ou grupos
para demandá-los, especialmente para os mais excluídos.
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28
GRÁFICO 2
Respondentes do censo do GIFE por áreas de atuação (2009-2016)
(Em %)
82
Educação
53
51
49
56
50
44
53
47
48
Cultura e artes
84
60
60
63
60
60
62
Formação de jovens para o
trabalho e/ou a cidadania
86
85
46
Apoio à gestão de organizações
da sociedade civil (OSCs)
Desenvolvimento local,
comunitário, de base
43
47 48
51
48
46 49
Meio ambiente
Geração de trabalho e renda
32
Esporte e recreação
36
45
29
Defesa de direitos
33
Saúde
26
Comunicação
27
0
10
20
47
41
Assistência social
31
32
38
37
30
43
42 45
41
48
49
43
40
2009
58
50
2011
60
2014
70
80
90
100
2016
Fonte: GIFE, 2017.
Para as empresas, que atuam em média em sete áreas, a terceira principal é geração de trabalho e
renda, seguida de cultura e artes, meio ambiente, esporte e recreação e saúde, todas com porcentagens
significativas. Os institutos e fundações empresariais, por sua vez, atuam em uma menor quantidade de
áreas (seis em média), e sua terceira principal é cultura e artes, seguida de esporte e recreação. Os familiares
são os que atuam, em média, em menos áreas ‒ cinco ‒ e têm como a terceira principal o apoio a OSCs,
seguida de desenvolvimento local, cultura e artes e defesa de direitos. Já os independentes atuam em seis
áreas e têm meio ambiente, defesa de direitos e apoio a OSCs como as três principais.
Essa análise parece indicar uma maior propensão dos institutos e fundações familiares e, principalmente,
independentes para atuar com temas “menos tradicionais” do ISP e aponta no sentido de diversificação.
Reforça-se, assim, a importância da complementaridade entre os diferentes perfis para a expansão da
agenda temática de atuação do investimento social e para o desenvolvimento de um campo fortalecido,
com mais atores e mais recursos.
3 DIVERSIDADE NAS PARCERIAS E ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO
OSCs e órgãos da administração pública são os principais parceiros dos investidores de todos os perfis,
citados por, respectivamente, 72% e 71% das organizações.
A tendência de considerar políticas públicas na atuação é, também, comum a todos ‒ apenas 14%
não o fazem. No entanto, as estratégias são muito variadas e mostram algumas diferenças interessantes
entre os diversos tipos de investidores. De forma geral, as empresas e os institutos e fundações empresariais
adotam uma quantidade menor de estratégias de alinhamento com as políticas públicas (3,4 e 4,8 em
média, respectivamente, como apresentado na tabela 1) do que os familiares (5,1) e, principalmente, do
que os independentes (5,4). Há diferenças, também, nos tipos de estratégias que se destacam para cada
perfil de investidor.
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Investimento Social Privado: um campo cada vez mais diverso
29
TABELA 1
Quantidade de estratégias de alinhamento com as políticas públicas adotadas por perfil de
investidor social
Perfil de investidor social
Quantidade de estratégias adotadas pelos respondentes, em média
Empresas
3,4
Institutos e fundações empresariais
4,8
Institutos e fundações familiares
5,1
Institutos e fundações independentes
5,4
Fonte: GIFE, 2017.
Embora 23% dos respondentes afirmem realizar diretamente ações de advocacy para influenciar
políticas públicas, nenhuma das empresas o faz, em contraponto a 45% das organizações familiares.
Com relação a atividades de controle social, 15% do total as realiza, mas o número cai para 7% entre os
institutos e fundações empresariais.
Os dados parecem indicar que os investidores sociais mais ligados às empresas tendem a se
enxergar menos no papel de abordar questões sociais na sua relação com o governo, no sentido de
influenciá-las, avaliá-las ou controlá-las de alguma forma. Para as empresas e os institutos e fundações
empresariais, parecem ter mais destaque ações como o desenvolvimento de metodologias e tecnologias
que podem ser incorporadas por políticas públicas (29% daquelas e 46% destes adotam essa estratégia)
e ações de formação/capacitação de gestores ou servidores (35% das empresas e 44% dos institutos e
fundações empresariais).
Essas diferenças compõem uma possibilidade muito interessante de trabalho no que se refere à
atuação do ISP junto às políticas públicas, já que cada grupo de atores parece mais propenso a ocupar um
papel, sendo todos complementares entre si. Essa percepção é, ainda, corroborada pela diferença substancial
que existe entre os perfis de investidores em conselhos ou em outros órgãos colegiados de participação
social. Respectivamente 18% e 30% das empresas e institutos e fundações empresariais participam dessas
instâncias, enquanto 41% dos familiares e 50% dos independentes dizem colaborar nesses espaços.
Sendo as OSCs o parceiro mais citado entre os investidores, é interessante ver um pouco mais de
perto como se dá essa relação.
Uma das maneiras pelas quais o Censo GIFE 2016 busca se aproximar dessa análise é por meio da
classificação dos investidores em três categorias: i) predominantemente doadores; ii) predominantemente
executores; e iii) híbridos (fazem ambas as coisas em proporções representativas). Na figura 1, é possível
observar essas categorias por tipo de investidor.
Essa classificação pode ter uma relação direta com o tamanho da equipe dos investidores: as empresas,
com maior representatividade entre os predominantemente doadores, possuem as menores equipes.
De fato, a mediana do número de colaboradores12 dos predominantemente doadores é 5, enquanto a
dos predominantemente executores é 16 e a dos híbridos, 13.
Há diferenças também nas formas como os tipos de investidores apoiam as OSCs. Entre aqueles que
não realizam apoio institucional a elas ‒ ou seja, sem vinculação a um projeto específico ‒ estão 80% dos
institutos e fundações empresariais e 73% dos familiares. Apoiam projetos de OSCs 76% das empresas,
por meio de doação/patrocínio pontual e eventual, ante 31% dos institutos e fundações independentes.
12. Incluindo aqui também os voluntários.
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FIGURA 1
Respondentes do censo do GIFE por forma de atuação
(Em %)
Predominantemente doam para outras
organizações e seus programas
empresas são
27% das
predominantemente doadoras
5
25
27
29
24
41
44
49
31
32
24
24
Predominantemente executam
seus próprios programas
49% dos institutos e fundações empresariais
são predominantemente executores
Doam e executam
47% das empresas são híbridas –
doam e executam
Institutos e fundações empresariais
Institutos e fundações independentes
Institutos e fundações familiares
Empresas
Fonte: GIFE, 2017.
As motivações para apoiar OSCs também oferecem pistas importantes sobre cada perfil – 82% das
empresas o fazem porque elas têm legitimidade para atuar com seus temas ou grupos sociais de interesse.
Em contrapartida, nenhuma das empresas respondentes afirmou apoiar OSCs porque são organizações que
defendem causas ou grupos sociais que outros atores não estão dispostos a apoiar. Além disso, 41% apoiam
por acreditar que é parte da finalidade do ISP contribuir para o fortalecimento e a sustentabilidade dessas
organizações, percentual que só é superado pelos institutos e fundações independentes (50%). Pode-se
supor, assim, que as empresas reconhecem a importância de dar suporte às OSCs, apesar de não estarem
dispostas a se conectar com causas que não estejam alinhadas à sua estratégia, muitas vezes vinculadas a
estratégias, objetivos, análises de risco etc. do próprio negócio.
Entre os institutos e fundações empresariais, destaca-se a porcentagem que apoia as OSCs
porque é parte da estratégia alicerçar organizações que influenciam políticas públicas ou realizam
controle social (23%), maior porcentagem entre todos os tipos de investidores sociais. Esse dado
pode indicar que tal perfil de investidor social, apesar de não ter muito foco na realização direta
de controle social, enxerga na parceria com as OSCs uma oportunidade para desenvolver esse tipo de
atuação. Vale destacar, ainda, que o mais alto percentual dos institutos e fundações empresariais está
relacionado à necessidade de se ter OSCs para operacionalizar e implementar os projetos (44%).
A partir dos dados anteriores e considerando a relevância em número e volume de investimento de
institutos e fundações empresariais, percebe-se no ISP uma concentração maior na execução de projetos
próprios, fato que se comprova quando observamos a distribuição do volume total de recursos: 60% são
destinados a projetos próprios, 21% a projetos de terceiros e 19% a custos administrativos. Nesse contexto,
fica clara a importância de fomentar e fortalecer cada perfil de investidor, considerando suas
características, potenciais e limitações, para que haja cada vez mais espaço para a diversificação das
formas de atuação do ISP e a ampliação do apoio a OSCs, com foco em gerar impactos de outra
ordem – impactos esses conectados com o fortalecimento do tecido social do país, da participação
cidadã e da construção democrática, para os quais uma sociedade civil fortalecida é essencial.
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Investimento Social Privado: um campo cada vez mais diverso
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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ainda que os dados analisados tenham limitações – como o restrito número de respondentes, centrado nos
associados do GIFE – e que não haja ainda no Brasil uma fonte ou pesquisa que nos indique o universo de
investidores sociais brasileiros, as informações disponíveis nos permitem identificar significativas tendências
e oportunidades e nos apresentam uma visão panorâmica sobre o campo, com dados representativos e
de qualidade. Ao mesmo tempo, a partir desta análise, fica claro que existe uma oportunidade para que
o tema da diversidade no ISP seja mais amplamente incorporado pelos atores envolvidos na promoção
desse setor e pela academia. Os dados disponíveis nos apontam caminhos de análise a respeito do tema,
mas são ainda iniciais e exploratórios. Há espaço para o aprofundamento sobre o entendimento de como
os investidores sociais compreendem a diversidade e seu papel e importância para o alcance dos objetivos.
Ainda assim, a interpretação dos dados existentes nos indica que não há somente uma grande
diversidade nos formatos, nas estratégias e na estrutura do ISP brasileiro, mas há também um potencial para
uma diversificação e ampliação ainda maior das estratégias adotadas pelo ISP como setor. As possibilidades
não se referem exclusivamente aos diferentes perfis de investidores (como a ampliação do investimento
social empresarial, o potencial de crescimento do número de organizações familiares ou o fortalecimento de
independentes): elas se direcionam à diversificação de estratégias e às formas de atuação no ISP, de maneira
transversal, em todos os perfis.
Nessa leitura, surgem como relevantes a ampliação da diversidade de gênero e raça na atuação; um
olhar mais amplo para a pluralidade de temas da agenda pública, em diálogo com a agenda dos Objetivos
do Desenvolvimento Sustentável (ODS); uma maior conexão com políticas públicas; e possibilidades de
ampliação da percepção que investidores têm dos seus principais parceiros ‒ as OSCs. Para esse caminho,
algumas probabilidades se estabelecem: i) conexão com parceiros ou organizações intermediárias para a
atuação em temáticas menos consensuais ou a doação para OSCs; ii) atuação nas políticas públicas junto
com parceiros, coletivamente, ou via apoio a OSCs que desempenhem esse tipo de papel; iii) investimento
em outras áreas temáticas, como foco específico ou de forma transversal; iv) incorporação da perspectiva
de gênero e raça de maneira transversal nos projetos; e v) aumento da diversidade em conselhos, equipe
e instâncias de tomada de decisão.
Buscar o desenvolvimento dessa diversidade tem a ver com a própria razão de ser do ISP. Isso favorece
o desenvolvimento de um ecossistema de investimento social mais fortalecido, legítimo e com maior
potencial de impacto – e, para além do setor, contribui para uma sociedade civil organizada mais plural e
atuante. Mostra-se, sem dúvida, como um elemento estruturante na contribuição do ISP para diminuir as
abismais desigualdades que estão na base de muitos dos desafios socioambientais enfrentados pelo Brasil.
Por fim, a própria discussão sobre o tema da diversidade no ISP nos leva a outras possibilidades de
aprofundamento. Há um potencial não explorado de articulação no âmbito do ISP no Brasil, buscando
promover as complementaridades e superar as sobreposições num setor formado por atores tão diversos.
Além disso, a ampla gama de estratégias utilizadas pelos investidores sociais é em si um campo aberto
para novos estudos que busquem analisá-las do ponto de vista de sua efetividade, de seu impacto e de sua
conexão com as agendas públicas do país.
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A Tecnologia por Trás do Mapa das Organizações da Sociedade Civil1
Tiago Nascimento2
Eric Ferreira3
Kleyton Pontes Cotta4
Vagner Praia5
1 INTRODUÇÃO
Segundo Grabosky (1995), sociedade civil organizada é o agregado de organizações não governamentais
(ONGs) e instituições que manifestam os interesses e a vontade dos cidadãos. As organizações da sociedade
civil (OSCs), também conhecidas como ONGs, são entidades nascidas da livre organização e da participação
social da população, e que desenvolvem ações de interesse público sem visar ao lucro. Elas tratam dos
mais diversos temas e interesses, com variadas formas de atuação, financiamento e mobilização. A agenda
política de um novo marco regulatório foi reforçada especialmente a partir da eleição presidencial de 2010
por um grande número de OSCs brasileiras havia tempos estabelecidas. O governo eleito aprovou, então,
como resultado desse debate público, um novo Marco Regulatório das OSCs,6 que tem três objetivos
prioritários: i) inovações legais e regulatórias para as relações e os contratos existentes entre o terceiro setor
e a administração pública; ii) sustentabilidade econômica; e iii) padronização da certificação de OSC
para isenções fiscais.
Entretanto, até 2014, não havia mecanismos fáceis de usar, nem transparência e/ou prestação de
contas públicas no Brasil para que a população tivesse acesso a informações sobre parcerias e acordos
realizados pela administração pública com as OSCs, gerando questionamentos sobre a forma com que o
dinheiro era empregado. A importância da transparência entre os acordos selados é firmada no Decreto
no 8.726/2018, no art. 78, em que se tornam obrigações a publicidade e a transparência nos convênios
entre o governo e a OSC.
Segundo Seo, Kin e Yang (2009), as OSCs nos Estados Unidos acreditam que promover a imagem
e a captação de recursos das organizações eram as duas funções mais importantes das novas mídias para
elas, o que sugere a importância de uma plataforma on-line que promova a imagem das OSCs pelo menos
na escala nacional. Surman e Reilly (2003), por sua vez, mostram muitas vantagens quando a tecnologia
é combinada com as ações das OSCs, pois isso pode fornecer uma excelente plataforma para colaboração,
fácil publicação, ampla mobilização e melhor vigilância on-line dessas organizações.
Projetos organizados pelas OSCs no Brasil propiciam uma contribuição valiosa para a prestação de
serviços públicos fundamentais: saúde, educação, assistência social, serviços aos idosos, ajuda a viciados em
drogas, serviços esportivos e culturais etc. São 8.021 organizações que trabalham diretamente com saúde
1. Uma versão maior deste texto foi publicada por Ferreira et al. (2017).
2. Pesquisador do Programa de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) na Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e
da Democracia (Diest) do Ipea.
3. Pesquisador do PNPD na Diest/Ipea.
4. Pesquisador do PNPD na Diest/Ipea.
5. Pesquisador do PNPD na Diest/Ipea.
6. Disponível em: <www.participa.br/OSC>.
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Boletim de Análise Político-Institucional | n. 20 | Junho 2019
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no país (Salgado, 2016) e mais 339.118 entidades que buscam desenvolvimento e defesa de direitos,7
como a defesa ao meio ambiente.
As OSCs concedem também uma apresentação pública maciça de dados confiáveis à população:
seus números; características gerais; campos de atuação e influência; distribuição espacial no território
nacional; número de pessoas empregadas; quantidade de dinheiro e riqueza que circulou do setor público
e privado para as OSCs; seus principais projetos; sua história e seu conhecimento acumulado etc. Sendo
assim, o Mapa das OSCs vem como uma plataforma que agrega informações concisas, abrangentes e
acessíveis sobre todas as OSCs brasileiras, além de integrar diversas bases de dados, o que oferece aos
gestores públicos informações atualizadas sobre onde as OSCs atuam e o que realizam, principalmente
em parceria com o governo. O Mapa também provê dados agregados para a tomada de decisão de atores
políticos, bem como investidores públicos e privados. O Decreto no 8.726, aprovado em 2016, que dispõe
regras e procedimentos das parcerias entre a administração pública federal e as OSCs, incumbiu o Ipea
da responsabilidade pelo Mapa das OSCs (art. 81).
Logo, é de suma importância ter uma plataforma digital para OSCs, agências de políticas públicas
e população. Este texto se subdivide em mais três seções, além desta introdução. Na seção 2 é explicado
como foi desenvolvido o sistema, ultrapassando alguns desafios, e como a tecnologia da plataforma do
Mapa é organizada. Na seção 3, são apresentados os primeiros resultados, triagens e alguns recursos em
desenvolvimento. Por fim, a seção 4 mostra algumas conclusões e os próximos passos do desenvolvimento
dessa plataforma, como direções futuras para o campo de soluções de dados do governo.
2 A PLATAFORMA DO MAPA DAS OSCs
Por ser um sistema digital governamental de dados abertos, o Mapa das OSCs deveria seguir estratégias
diferentes daquelas adotadas em geral. De acordo com McClure (2000), um sistema digital governamental
(e-government) apoia o uso de tecnologias pelo governo, principalmente em aplicações baseadas na web para
melhorar o acesso e a entrega de informações e serviços do governo aos cidadãos, parcerias, funcionários,
outras agências e entidades governamentais.
Conforme a Open Knowledge International,8 dados abertos são informações livremente acessíveis
por qualquer pessoa que desejar usá-los e compartilhá-los. Caso sejam governamentais, essa permissão
é extremamente importante – no conceito de governo aberto, os cidadãos têm o direito de acessar esses
documentos e procedimentos a fim de possibilitar uma supervisão pública eficaz (Lathrop e Ruma,
2010). Assim, construir uma plataforma digital para OSCs apresenta muitos desafios a serem enfrentados.
Para tanto, a partir de um histórico sólido, levamos em conta dicas importantes que Layne e Lee (2001)
indicam sobre um modelo de sistema governamental. Dessa maneira, foi possível desenvolver o Mapa,
o qual alcançou até aqui os resultados esperados.
O Mapa também é constituído por um componente de crowdsourcing, um tipo de atividade
participativa on-line na qual é proposto, por meio de uma chamada aberta flexível, o comprometimento
voluntário de realizar uma tarefa (Estellés-Arolas e González-Ladrón-de-Guevara, 2012). Soluções de
crowdsourcing podem ser adequadas para resolver quatro tipos de problemas: i) descoberta e gerenciamento
de conhecimento; ii) atribuição de inteligência humana distribuída; iii) pesquisa de difusão; e iv) produção
criativa avaliada por pares (Brabham, 2013).
7. De acordo com dados do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), 2016, disponível em: <https://www.mapaosc.ipea.gov.br/>.
8. Disponível em: <http://opendefinition.org>.
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A Tecnologia por Trás do Mapa das Organizações da Sociedade Civil
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No Mapa, o crowdsourcing consiste na inserção e edição de dados na página de determinada
OSC por seus representantes, produzindo informações inovadoras e precisas que nem o governo nem os
cidadãos conhecem. Isso leva a novos estudos e compreensões, além de economizar dinheiro dos cofres
públicos que seria gasto com burocracia para alcançar esse resultado. A seguir, são apresentadas algumas
características das bases de dados utilizadas pelo Mapa.
2.1 Bases de dados
Atualmente, o Mapa das OSCs cataloga bancos de dados do governo federal, realizando esforços para
obtê-los, integrá-los e disponibilizá-los on-line. Ele integra treze bases do governo federal – divididas em
três blocos: perfil das OSCs, recursos públicos e participação social –, reunindo dados relacionados às OSCs,
como cadastros, certificados, participação em conselhos de políticas públicas e parcerias com governos.
As bases de dados dos perfis das OSCs apresentam informações originadas de registros administrativos
e dados oficiais sobre organizações certificadas pelas agências federais. Além disso, tais informações também
vêm das próprias OSCs, como nome da empresa, nome comercial, endereço, número de telefone, e-mail,
número de trabalhadores formalmente empregados etc.9 A seguir, são detalhados cada um dos bancos
de dados utilizados.
•
Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), Secretaria da Receita Federal: o Cadastro Nacional
de Pessoa Jurídica (CNPJ) compreende as informações cadastrais das entidades de interesse das
administrações tributárias da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
•
Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), Ministério do Trabalho: consiste em um registro
administrativo, criado em 1975, visando suprir necessidades da gestão governamental para o setor de
trabalho e emprego.
•
Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), Ministério da Justiça: uma titulação
conferida a entidades cujos objetivos sociais tenham pelo menos uma destas finalidades: i) promoção
da assistência social; ii) promoção gratuita da educação, defesa, preservação e conservação do meio
ambiente; e iii) promoção do desenvolvimento sustentável – entre outras.
•
Certificação de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS): concedida a entidades reconhecidas
como pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, como requisito para a isenção do pagamento
de contribuições para a seguridade social e a celebração de convênios com o poder público. Essa certificação
é outorgada pelos ministérios da Saúde, Educação e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
•
Censo do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome: consiste no processo de monitoramento de coleta de dados, via formulário eletrônico,
preenchido por secretarias e conselhos de assistência social de estados e municípios.
•
Cadastro Nacional das Entidades de Assistência Social (CNEAS), Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome: relaciona as OSCs que desempenham atividades de assistência social e que
são acompanhadas por parte do Estado.
•
Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), Ministério da Saúde: é integrado por
estabelecimentos que têm a finalidade de realizar ações e/ou prestar serviços de saúde, seja de forma
coletiva, seja de forma individual, independentemente do seu porte ou nível de complexidade.
•
Cadastro Nacional de Entidades Ambientalistas (CNEA), Ministério do Meio Ambiente: contém o
registro das entidades ambientalistas não governamentais atuantes no país.
9. Mais detalhes relevantes sobre esses bancos de dados e sua origem são mostrados por Souto, Pedrozo Júnior e Goldblaum (2015).
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As bases de dados de recursos públicos viabilizam informações sobre as OSCs e os recursos fornecidos
por meio de suas parcerias com o governo, contendo referências relacionadas à área de atividades (cultura,
esportes, pesquisa e desenvolvimento etc.), títulos e objetivos de projetos, datas efetivas, valores totais e
captados etc. São elas:
•
Sistema de Apresentação das Leis de Incentivo à Cultura (Salic), Ministério da Cultura: sistema pelo
qual é feito o recebimento, a análise das propostas culturais e também a aprovação, a execução, o
acompanhamento e a prestação de contas dos projetos culturais.
•
Sistema da Lei de Incentivo ao Esporte (SLIE), Ministério do Esporte: sistema para cadastro de propostas
relacionadas ao incentivo fiscal a pessoas físicas e jurídicas que realizam doações ou patrocinam projetos
desportivos e paradesportivos.
•
Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) da Financiadora de Inovação e
Pesquisa (Finep), Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação: sistema de financiamento
de projetos para desenvolver o Brasil econômica e socialmente por meio do investimento público em
ciência, tecnologia e inovação.
•
Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), Ministério da Fazenda: sistema para o registro,
acompanhamento e controle da execução orçamentária, financeira e patrimonial do governo federal.
•
Sistema de Gestão de Convênios e Contratos (Sincov), Ministério do Planejamento, Desenvolvimento
e Gestão: sistema que reúne e processa informações sobre as transferências de recursos do governo
federal a entidades.
A base de dados de participação social, fornecida pela Secretaria de Governo, apresenta conselhos
e comissões nacionais de políticas públicas, que têm papel fundamental no ciclo de importantes políticas
públicas, em diversas áreas. Com a inserção de dados de representantes, é possível identificar OSCs que
atuam em instituições participativas.
3 RESULTADOS
Toda a tecnologia do Mapa das OSCs utiliza ferramentas de código aberto e promove o compartilhamento
de conhecimento e dados. Também conta com acesso on-line, e é possível se reconectar aos repositórios do
sistema gratuitamente. Os códigos podem ser acessados pelo GitHub,10 e o público contribui como quiser.
A figura 1 mostra uma de suas interfaces, e contém um mapa coroplético, que apresenta a distribuição
das OSCs no Brasil, em cores, e a quantidade, em números, das OSCs agrupadas.
A figura 2 mostra a guia da lista de resultados, que contém dados característicos a respeito de
cada OSC. Além disso, mostra o botão detalhar, que, ao ser clicado, exibe todas as informações sobre
uma OSC em uma página específica.
10. Disponível em: <https://github.com/Plataformas-Cidadania/>.
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A Tecnologia por Trás do Mapa das Organizações da Sociedade Civil
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FIGURA 1
Mapa coroplético de distribuição das OSCs no Brasil
Satélite
Contraste
Mapa
Mapa de
calor
OSCs por estado
Passe o mouse sobre
um estado
Escala de OSCs
por estado
1 – 1000
1001 – 15000
1001 – 30000
30001 – 45000
45001 – 60000
60001+
Fonte: Ipea, 2019.
Obs.: Figura reproduzida em baixa resolução e cujos leiaute e textos não puderam ser padronizados e revisados em virtude das condições técnicas
dos originais (nota do Editorial).
FIGURA 2
Lista de resultados das OSCs
Fonte: Ipea, 2019.
Obs.: Figura reproduzida em baixa resolução e cujos leiaute e textos não puderam ser padronizados e revisados em virtude das condições técnicas
dos originais (nota do Editorial).
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O Mapa também permite que o representante insira, exclua ou edite quase todos os materiais da
página da OSC, tornando os dados colaborativos. Isso faz com que ele contenha informações que nem as
agências públicas federais possuem, além de: i) agilizar e simplificar a comunicação e a aquisição de dados
sobre organizações; ii) fornecer um espaço de informação digital no qual as OSCs podem complementar
os dados adquiridos de fontes públicas e oficiais; iii) viabilizar dados sobre todas as OSCs brasileiras para o
mundo por meio de um site público gratuito; iv) manter informações de tecnologia aberta e livre a fim
de permitir a transparência da prestação de serviços de valor agregado por intermediários; e v) ser uma
fonte de inovação e compartilhamento de melhores práticas e tecnologias.
Outrossim, o Mapa ainda possui um mapa geográfico de pesquisa das OSCs; barra de pesquisa;
consulta avançada para realizar filtros de pesquisas; mecanismo de pesquisa para chamadas de financiamento
do projeto; indicadores e infográficos; gráficos contendo informações inéditas sobre OSCs; menu de
acessibilidade para pessoas com deficiência; seção de registro para representantes de OSCs, com tutorial
para o registro; tutorial para a edição de página de perfil de OSC; página de perfil de OSC compreensiva
e compatível com dispositivos móveis; atualização diária de dados públicos; e base de dados disponível
para o público. Além disso, o Mapa é útil para pesquisadores e o público em geral que queira coletar
todas as informações limpas (dados já trabalhados) usadas dentro dessa plataforma sem se preocupar em
codificação ou processos de fusão de dados (criar diversas uniões entre dados para gerar um resultado).
4 CONCLUSÃO
Foi estabelecida uma ampla plataforma no setor das OSCs em nível nacional para suprir a falta de
informações sistemáticas voltadas à transparência pública e à prestação de contas. Isso proporcionou à
administração pública, em parceria com as OSCs, um instrumento inovador e novos serviços públicos
confiáveis, protegendo e, simultaneamente, capacitando as OSCs a contribuírem para o seu caminho
de credibilidade. Foram fornecidas, por meio de reformas legais e institucionais, ferramentas para a
sustentabilidade das OSCs a longo prazo.
Vale ressaltar, ainda, que o Mapa das OSCs oferece dados confiáveis para o setor acadêmico, focados
na realidade das OSCs, ao mesmo tempo que disponibiliza continuamente relatórios e publicações para a
sociedade, buscando melhorar a interação com as informações. A seguir, estão relacionados os principais
beneficiários e os respectivos benefícios oferecidos pelo Mapa.
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•
Financiadores de projetos públicos e privados: satisfaz, em primeira instância, a busca e a seleção de
OSCs para financiamento de projetos. Permite o mapeamento das OSCs com experiência por área
de atuação, ajudando o financiador a encontrar as organizações que atendem aos requisitos de trabalhar
em uma comunidade específica. Permite a identificação de muitas OSCs, para fins comparativos.
•
OSCs: oferece a essas entidades, independentemente de seu tamanho, meios e oportunidades para
realizar seu trabalho, sem precisar depender de recursos financeiros para disponibilizar as informações
(o sistema é público), nem de conhecimentos avançados (pois o sistema é de fácil acesso), demonstrando
sua responsabilidade pública de maneira transparente. Simplifica o relacionamento e a comunicação entre
as OSCs e os diferentes financiadores de projetos (fontes de recursos), pesquisadores e instituições que
intermediam doações privadas (individuais e institucionalizadas). Permite que as OSCs compreendam
o trabalho de outras organizações brasileiras e troquem informações, experiências e boas práticas entre
si, facilitando a formação de redes. Potencialmente, o Mapa pode reduzir os custos de médio e longo
prazo da mobilização de recursos pelas OSCs, proporcionando informações que ajudarão as OSCs e
seus doadores e financiadores institucionais, privados e/ou individuais, a identificar projetos de interesse.
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